EMEI Jardim Monte Belo – um lugar pra ser feliz!

Arquivo para dezembro, 2014

INFORMAR * FORMAR* FORMAR-SE * TRANSFORMAR

Por  Meire Festa

Nosso blog fala, em diversos momentos, do Projeto Alegrias de Quintal que acontece no período intermediário na EMEI Jardim Monte Belo.

Muitos educadores nos perguntam como chegamos à “tremenda ousadia” do Projeto Alegrias de Quintal.

Acreditamos que vários foram os pilares desta transformação e gostaria de, brevemente, deter-me em alguns deles:

a história,  a transformação, o grupo, o tempo, a inverdade das certezas.

 

UM VISLUMBRE DE UMA LONGA HISTÓRIA

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            Consideramos que o Projeto Alegrias de Quintal é fruto de um caminho de transformações e de  experimentação, que foi assumindo diferentes formatos e nomes, mas vem se constituindo desde 2011, a partir da ampliação da permanência das crianças na escola de 4 para 6 horas.

            Iniciou-se sobre a forma de “ oficinas “ bimestrais que se atrelavam às diferentes linguagens expressivas. Nesse momento cada educadora se responsabilizava por uma área específica (música, brinquedos e brincadeiras, artes plásticas, teatro, etc…) e desenvolvia projetos com as turmas, alternadamente. Embora tivessem propostas interessantíssimas para vivenciar, as crianças neste momento ainda cumpriam uma série determinada de ações planejadas pelas educadoras, num tempo previsto, sendo as propostas consideradas de como tendo pouca flexibilidade, segundo nossos padrões atuais.

Num segundo momento as “oficinas”  passaram a ser semestrais. Com duplas de educadoras em cada linguagem expressiva e com a definição de temas para estudo mais aprofundado, havia um processo reflexivo mais partilhado entre as educadoras e uma observação mais significativa dos desejos, necessidades e ações das crianças.

Nessa fase do projeto buscou-se maior respeito aos “tempos infantis”, desobrigando, em alguma medida, as crianças de cumprirem determinadas tarefas em tempos muito regulados pelos adultos, facultando um maior número de propostas simultâneas e aprofundando nossa capacidade de observar e “ouvir” as crianças.

Em 2013 o projeto assumiu a configuração atual. A mudança expressiva ocorreu quando, à criança, foi possibilitado gerenciar seu próprio tempo, fazendo escolhas entre variadas propostas, num lugar aberto e propício para a efetivação das culturas infantis. Essa ação tem as adultas/educadoras como elementos desafiadores e ao mesmo tempo de apoio para a ação infantil.

Hoje acreditamos que o processo de mediação das educadoras vem tomando outras dimensões, nas ações diretas ou indiretas, fruto desse processo de autoformação que nos referiremos a seguir. Nesse contexto as crianças , bem como os adultos, estão constituindo-se  enquanto pessoas de direitos e deveres, numa horizontalidade nas relações  que permite um exercício real de autonomia e autocontrole dos pequenos, e da responsabilidade, autonomia e profissionalidade dos adultos.

A   TRANSFORMAÇÃO

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       Não há mudança sem estranhamento. O que é “cotidiano”, “normal”, está naturalizado aos nossos olhos e, o que é natural, não requer transformações, torna-se quase uma verdade absoluta.

Transformar é diferente de inovar,  transformar de fato não é apenas mudar uma prática temporária, seguir uma “moda pedagógica” ou fazer algo, a título de novidade, que irá se esvair com o tempo e com o surgimento de novas “modas”.

Por este motivo, não acreditamos em transformações sem formação. É só o diálogo com outros saberes que nos permite acessar nossas ideias mais basilares, nossas reais concepções, que são, no final das contas, aquelas que movem praticamente a totalidade de nossas ações.

Nos processos de formação continuada que ocorrem na unidade não acreditamos que um sucedâneo de informações, muitas vezes descontextualizadas do currículo desenvolvido, seja o caminho adequado para a mudança. Também sabemos que é impossível que outra pessoa “ nos forme”, como se fosse uma dádiva ou presente de outrem.

Nossa formação não pode ser “presenteada” a nós por quem quer que seja. Formar-se é um processo automotivado, construído pelo próprio indivíduo, e que requer uma predisposição por parte deste para rever suas crenças, valores e caminhar em direção a um patamar diferente de ação.

Outro ponto fundamental nesse processo de formação, que acreditamos ser a fonte das transformações efetivadas, é que nos formamos em processo de partilha. Partilha de nossos saberes com os saberes dos outros, sejam estes outros os referenciais teóricos, a legislação em vigor, os pensadores do campo da educação ou de outros campos de conhecimento, os colegas de trabalho, as práticas existentes, as respostas das próprias crianças às nossas proposições e ações, e tantos outros saberes  que podemos e devemos acessar quando queremos rever-nos a luz de diferentes olhares.

Portanto, as transformações que nos dirigiram até os projetos que hoje desenvolvemos nessa EMEI, não foram uma questão de sorte ou uma dádiva. Houve e ainda há, um processo de construção, que ao mesmo tempo é individual e coletivo, que emerge do desejo de fazer cada vez melhor aquilo que nos propomos a fazer, e que esta sempre em continuidade, acreditando ser a qualidade da educação algo transicional, sujeito a progressivas  transformações.

 O   GRUPO

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       Pelo que já colocamos acima é fácil perceber que fazer parte de um grupo é mais do que trabalharmos uns ao lado dos outros. Fazer parte de um grupo não é trabalhar perto de alguém, mas com esse alguém.

Um grupo se forma na divergência e na convergência dos saberes, das concepções, das práticas. Um grupo nos sustenta e apoia, mas também nos desafia, pois muitas vezes as decisões do coletivo nos contrariam ou amedrontam.

Trabalhar em grupo exige disponibilidade, exige respeito pelos outros e pelos saberes destes, mas também exige clareza da necessidade e da urgência de seguirmos os princípios comuns para a educação das crianças pequenas, estabelecidos através dos variados diálogos possíveis.

Trabalhar em grupo não é nada fácil. Não escolhemos nossos colegas de trabalho como escolhemos nossos amigos. Estamos numa mesma viagem, num mesmo local de trabalho, unidos pelo amor, pela dor e pela delicadeza da totalidade de nossas diferenças (como humanos e como profissionais).

Ser flexível com nossas crenças mais profundas é tarefa para os fortes, exige romper o individualismo em favor de um bem maior. Falar, expor nossas ideias, defender nossos pontos de vista, parece-nos fácil, mas ouvir o outro, na totalidade que esse termo integra, é sempre muito complicado.

Por isso acreditamos que um grupo se constitui no conflito, não no conflito interpessoal e emocional, mas no conflito intelectual, onde as ideias de todos têm o mesmo peso e valor, mas as decisões do coletivo têm validade acima das questões individuais.

       Nosso objetivo é, ao longo do tempo, construir um grupo permeável o suficiente para adequar-se às constantes transformações que o contexto social, cultural e histórico exige, ao mesmo tempo que construímos um grupo resistente a fatores externos, que tenha consolidado saberes e práticas que valorizam e apoiam a construção de conhecimentos das crianças pequenas, bem como as suas culturas.

Nosso grupo hoje, apesar de sua completa diversidade, já consegue perceber a criança como centro de todo processo educativo e persegue diariamente a execução dos princípios acordados como adequados para implementação das ações educativas.

Temos o desejo e já encadeamos algumas ações para que o grupo-escola seja efetivamente maior do que o grupo de funcionários. Pensamos ações ora acertadas ora nem tanto, para envolver as famílias e a comunidade na constituição de grupo efetivamente cooperativo e “empoderado”,  que haja em favor de todos os meninos e meninas da escola e da comunidade. A constituição de um Conselho de Escola forte e participativo é um desses avanços alcançados.

 

O TEMPO

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       Não se constitui um grupo no imediatismo. Também não de faz a reconstrução dos saberes e das verdades de um grupo numa formação de 30 horas, por melhor que esta seja.

O tempo tem sido nosso aliado e também nosso desafiante.

Aliado porque temos uma equipe de educadoras bem estável, que já construiu relações com as demais colegas e a comunidade e também para as quais os acordos efetuados em torno dos princípios éticos, estéticos e políticos que se decidiu implementar para a educação dos meninos e das meninas bem pequenos, estão bem claros e são fruto de construção parceira e dialogada.

O tempo também é um desafio, à medida que, enquanto humanos, não passamos por processos imediatos de revisão de valores e crenças. Sabemos que há conceitos, muitas vezes até inconscientes, que movem nossas ações e que só são possíveis de transformação através de um processo intencional e paulatino de desconstrução, feito pelo próprio individuo em contato com outras pessoas e saberes .

Esse desafio de transformar as ações “para melhor”, no  mesmo momento em que estas estão sendo desenvolvidas na escola, torna-se angústia e estímulo para a revisão das práticas.

Sabemos que o tempo dos adultos nem sempre é o tempo das crianças, mas o fato das crianças ficarem apenas dois anos na unidade, nos amplia a responsabilidade de revisão de nossas crenças e práticas, pois reconhecemos o direito dos meninos e das meninas de receber o melhor da cultura e da humanidade nesse período na escola, tendo apoio incondicional a para seus processos de aprendizagem e de desenvolvimento.

Falando do tempo, vale ressaltar que os processos formativos individuais têm diferentes tempos e uma diversidade de acontecimentos, mas os processos de formação continuada e de discussão coletiva na unidade, apenas sobre minha coordenação já somam 7 anos e foram precedidos por outros processos, que constituem, em comunhão com as práticas efetivadas, a cultura institucional da EMEI Jardim Monte Belo.

Formar-nos e transformar não é nada fácil nem rápido, mas algo necessário, impreciso, estimulante, que apesar de  estar sempre incompleto, é extremamente gratificante.

 

A INVERDADE DAS CERTEZAS

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       Tudo está em mudança, já dizia Heráclito de Éfeso (500a.c): “Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez não somos os mesmos, e também o rio mudou.”

       As certezas nos dão segurança, mas também podem impossibilitar as mudanças necessárias. Partindo desse exercício reflexivo de identificar nossas certezas e nossas práticas “naturalizadas”, concluímos que nossos saberes sobre a criança, sobre o processo educativo, sobre as ações desenvolvidas e tudo mais, necessitam de avaliações e reconstruções sistemáticas sendo, apenas dessa maneira, passíveis de transformações realmente significativas e que beneficiem os processos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças pequenas.

Enquanto grupo, decidimos então enfrentar nossas certezas, confrontando-as com outros saberes e ações possíveis. Decidimos que as inovações não fundamentadas eram desnecessárias e indesejáveis, mas que as transformações profundas, frutos de processos partilhados e reflexivos, que permitissem cada vez mais, às crianças pequenas, o exercício de autogestão e a valorização de suas culturas, seriam nossa meta.

Diante do medo inevitável do que poderia acontecer durante a jornada por esses caminhos até então desconhecidos, COMBINAMOS QUE PODERÍAMOS ERRAR.

Simples assim….O erro, considerado enquanto fruto do processo de busca e experimentação, evidencia que nosso esforço, embora valoroso, deve seguir em outra direção, apenas isso.

O erro não é um fracasso pessoal, não é um desastre, não é algo por que se culpar ou envergonhar-se. O erro é apenas um alerta, um sinal, identificando a necessidade de mudança de rota.

Essa maneira de enfrentar a situação de contrariedade sem medo ou resistência, e com apoio do grupo, mostrou-se eficaz na produção de ações cada vez mais propositivas, já que acreditamos que os equívocos cometidos evidenciam apenas a necessidade de outras tentativas, diversas das  utilizadas até o momento.             Cada vez mais temos clareza da inverdade e da transitoriedade de nossas certezas e percebemos que isso nos coloca ainda mais em movimento.

 

FRUTOS DE NOSSO PROCESSO:

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            Um dos frutos desse processo, que já podemos identificar, é que o atendimento aos meninos e meninas dessa escola, já está fundamentado em princípios comuns, que regem as ações de todos da unidade.

Esses princípios são ao mesmo tempo motivo de orgulho e de responsabilidade, e como tudo que está em movimento, há a clareza de que não chegamos ao ponto que almejamos em todos esses aspectos, embora avanços já sejam muito visíveis.

Outra questão é a possibilidade de ver, diariamente, pelos corredores da escola, crianças cada vez mais falantes, atuantes, questionadoras e que a todo momento demonstram sua autonomia intelectual.

Estamos nos tornando profissionais mais observadores e reflexivos, e isso nos tem possibilitado “estranhar” o cotidiano, o que nos faz cada vez mais  buscar formas de transformá-lo e qualificar nossas ações com a infância.

Em síntese, nosso processo atual busca:

 

Formar para transformar (as concepções, as ideias, os saberes…..)

Transformar para qualificar ( as ações, os espaços, as intervenções….)

Qualificar para valorizar (os humanos grandes e pequenos envolvidos na ação educativa…)

 

“Talvez, para além do aparente ou para além do discurso esperado, a transformação signifique encontrar-se no chão, amparada, mas estando ali, simultaneamente, em movimento intenso. Manter-se na roda, sem tirar o chão do outro, sem perder seu próprio chão, sendo puxada, incentivada, acionada, para cima, continuando no lugar, vibrando, mantendo-se em mudança, embora imperceptível, sem estardalhaço, sem holofote nem espetáculo. Parece ser essa a mudança de que precisamos…. é preciso mexer, movimentar o pedagógico de modo que a mudança possa garantir que as pessoas continuem crescendo e permaneçam humildes, isto é, humanas, sem alardear o conhecimento científico supostamente novo como se fossem medalhas. Não se trata de mérito, mas da luta de muitos. Luta diária, quieta.”     Sonia Kramer in Cad. Pesqui. vol.34 no.122 São Paulo May/Aug. 2004

 

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