EMEI Jardim Monte Belo – um lugar pra ser feliz!

Texto: Professora Karina Cabral

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Tempos atrás, postamos um texto em nosso blog que virou campeão de acessos e provocou muitas outras conversas com educadores e educadoras, via e-mail, encontros, discussões, fóruns – você pode ler o texto AQUI. Ele trata sobre a nossa postura em relação à comemoração de datas que as escolas infantis tradicionalmente comemoram. Esclarecemos, em nossa escrita, parte de anos de nossas discussões internas. Entendemos nosso papel como educadoras e educadores de escola pública. E a escola pública é laica ( não professa religião nenhuma ), inclusiva, consciente dos fatos de nossa História ( sempre contada pelos  dominantes, nunca pelos dominados ) e não pode incentivar o consumismo. Embora não fosse, na época, uma postura comum, era uma postura de acordo com as leis do nosso país ( Constituição Federal – 1988, e Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB – 9394/96 ) e também de acordo com os ideais de uma educação democrática, para todos e todas, sem deixar ninguém de fora.

O texto rendeu muitas discussões, mas percebemos que faltava uma conversa que era a mais importante – com as famílias das crianças de nossa escola. Nas reuniões de Conselho de Escola, esse tema surgiu várias vezes. Todos os anos, metade dos alunos da escola vão para o Ensino Fundamental, e recebemos novas crianças. Essas novas famílias precisam entender nosso ponto de vista sobre esse assunto, tirar as dúvidas e dar sua opinião. E toda vez que essa troca acontece, também nos faz mudar de perspectiva, confirmando ou mudando nossas posições.

Aqui está o registro escrito da conversa que tivemos na última reunião de famílias e educadoras, este ano.

POR QUE COMEMORÁVAMOS DATAS NA ESCOLA?

Tempos atrás, aqui na EMEI Jardim Monte Belo, era comum comemorarmos essas datas na escola. É uma prática antiga, e que fazíamos sem pensar. Páscoa, dia das mães, festa junina, dia das crianças, dia do índio, dia disso, dia daquilo… Muitas escolas baseiam todo o seu planejamento educativo nessas datas. Mas aos poucos, começamos a nos perguntar SE deveríamos comemorar essas datas, e POR QUE deveríamos comemorá-las. E as respostas vieram… E atrás delas outras perguntas:

“Precisamos de temas para atividades pedagógicas.”

Mas…

Se estamos construindo um projeto pedagógico sério, estudando as melhores formas de educar as crianças, precisamos mesmo “disfarçar” as atividades em temas supostamente agradáveis?

“Todo mundo faz essas comemorações, é um costume.”

Mas…

De onde vem esse costume? Que ideologias estão por trás dele? Compactuamos com essa ideologia? A escola é um lugar de transformação ou reprodução do meio social?

“Fazemos isso para homenagear um determinado grupo de pessoas.”

Mas…

Será que essas pessoas estão sendo homenageadas da melhor forma? Comemorar o “dia do índio” é mesmo dar voz a um povo que é massacrado todos os dias? Comemorar o “dia da mulher” é falar sobre a luta das mulheres? Comemorar o dia das mães da maneira tradicional é respeitar as novas formatações de família que temos em nossa sociedade, e entre nossas crianças? Por que valorizar tanto o dia das mães, e negligenciar o dia dos pais?

“É um jeito de divulgar nosso trabalho para as famílias.”

Mas…

Será que as famílias não são capazes de compreender a fundo nossa proposta pedagógica, se explicarmos a elas? Será que um enfeite ou presentinho falará mais do que um debate, uma reflexão em grupo, uma conversa aberta, uma formação para os pais e mães?

“É uma desculpa para fazermos festas e brincadeiras para as crianças, elas gostam e se divertem.”

Mas…

A escola não deveria ser um lugar divertido e prazeroso para as crianças sempre? Não deveria ser um lugar  de brincadeiras, de ludicidade, de infância todos os dias do ano?

“As datas aproximam as famílias da escola.”

Mas…

Será que não podemos chamar as famílias em outras oportunidades, para vivenciar o trabalho da escola como ele é no cotidiano, e não apenas em uma ocasião “produzida” para isso?

“As datas ensinam valores religiosos, afetivos e morais importantes para as crianças.”

Mas…

Que valores são esses? Temos o direito de pisar em determinados terrenos sem permissão e tirar da família certas escolhas sobre a educação das crianças? Como fazemos com as crianças que são excluídas dessas comemorações por motivos afetivos, econômicos, sociais, religiosos? Manteremos essas pessoas à margem do padrão?

COMO FOI O NOSSO PROCESSO DE DISCUSSÃO?

Diante de tantas perguntas, pensamos, como grupo, que algo estava muito errado, e precisava mudar.

Partimos para um estudo detalhado sobre o tema de cada data, e também sobre as datas em si. Entramos em contato com os movimentos organizados da sociedade sobre as lutas das mulheres, dos índios, dos negros, e aprendemos muitas coisas.

Paralelamente à nossa discussão, foram acontecendo mudanças em nosso país também. Leis educacionais foram sendo promulgadas, garantindo direitos a grupos que antes eram desprezados pela sociedade ( Lei 10639/2003, e Lei 11645/2008). Começamos a entender que a escola só será para todos quando todos e todas forem estiverem dentro dela, podendo ser quem são, e tendo a origem, cultura e opções de vida respeitadas.

Começamos a fazer pequenas mudanças. Retiramos o viés de consumo e individualidade de datas como a páscoa. Paramos de comemorar datas que não tinham sentido para nós. Fomos eliminando algumas comemorações que não diziam respeito às crianças, e, ao mesmo tempo, nosso Projeto Político Pedagógico foi ganhando corpo, e mudando a nossa concepção de infância e de educação para a infância.

Nenhuma ação fica sem reação, e, claro, as famílias estranharam as mudanças. Abrimos um diálogo difícil, mas necessário com elas. Tocar nesse assunto é romper paradigmas; isso causa medo, insegurança; e muitas coisas precisam ser discutidas para que cheguemos a um consenso.

Amadurecendo e estudando cada vez mais… Chegamos, enfim, a um rompimento com essa prática. Abolimos as comemorações de páscoa, dia das mães, natal… E transformamos o caráter da festa junina e do dia das crianças. Foi um momento de postura radical do grupo, que já não via sentido nisso tudo.

Mas percebemos que esse também não era o caminho. Não há problema em comemorar… O problema é o que se comemora, e como se faz isso. E foi então que partimos para uma reelaboração do calendário de datas comemorativas da nossa EMEI.

FALAR DE DATAS COMEMORATIVAS NA ESCOLA É FALAR DE VALORES…

Percebemos que a ideia de valor é sempre individual ou social, nunca absoluta. Cada sociedade elege, em seu tempo, lugar e cultura, o que vai transformar em “valor” ou não. E se é assim, começamos a pensar em quais valores identificávamos em nossa sociedade. E percebemos que eles não eram, de fato, nossos, e não eram os valores que queríamos acordar com as crianças e famílias que passavam por aqui.

  • Nossa sociedade é baseada em individualismo… Cada um por si, e quem pode mais se dá melhor.

Mas nós pensamos em coletividade, em convivência mútua!

  • Nossa sociedade é baseada em meritocracia… Você ganha mais coisas tanto mais consegue produzir ou fazer, ainda que as condições não sejam as mesmas para todos no início.

Porém, acreditamos em solidariedade, justiça e igualdade!

  • Nossa sociedade é baseada em consumismo… Quanto mais você tem, mais você é valorizado.

Mas nós queremos valorizar o que as pessoas são, e não o que elas têm!

  • Nossa sociedade é baseada em esperteza… Não importa o que você faça, apenas tenha sucesso.

Mas nós buscamos a ética nos relacionamentos, onde ninguém passa ninguém para  trás para se dar bem, ainda que isso lhe custe algumas desvantagens!

  • Nossa sociedade é baseada em violência, exclusão e intolerância… Resolvemos os problemas da convivência com agressões, com discursos duros e egoísmo.

Mas nós queremos que nossas crianças respeitem todas as pessoas como são, aceitem a diversidade, incluam a todos e todas e sejam pacíficas!

  • Nossa sociedade é baseada em alienação… Fazemos as coisas no “automático”, sem pensar, refletir ou transformar; colocamos a nossa mente em uma tela de TV, celular ou computador e não observamos o que estamos fazendo com o mundo, com a natureza, com as outras pessoas, e conosco.

Mas nós acreditamos na consciência, responsabilidade, na capacidade de pensar e mudar as coisas para melhor!

  • Nossa sociedade é baseada em autoritarismo… Obedecemos ordens que nem sabemos de onde vêm, e o poder individual é sempre valorizado.

Mas nós acreditamos em diálogo, democracia e em construção de poder coletivo, dividido!

O trabalho com datas comemorativas, muitas vezes, reforçava valores da sociedade que temos, e não da que queremos ter.

COLETIVO, ESCOLA PÚBLICA E DEMOCRACIA

A palavra “coletivo” vem do latim “collectivus”, que significa “aquilo que agrupa, que ajunta” (fonte: site Origem da Palavra). Portanto, para fazer um coletivo, não podemos buscar o que entre nós é desacordo, é separado, é motivo de afastamento; buscamos aquilo que nos une.

E sendo assim, não vamos discriminar ninguém – de nenhum tipo de configuração familiar, religião, posição política. Não vamos sacrificar as posições de nenhuma família para fazer uma comemoração que é familiar, ou de um determinado grupo religioso; não vamos fazer o que é de todos e todas algo que é apenas de alguns e algumas.

A escola pública não é o quintal da casa de ninguém. Ela não é prolongamento de nenhuma família. Ela é um espaço que é, ao mesmo tempo, de todos e todas, mas não só desse ou daquela. É uma ideia difícil de entender, mas fácil de viver se conseguirmos nos respeitar e aceitar que  a nossa origem, as nossas posições, o nosso modo de ser, viver, pensar a vida não é o único… É só mais um, em um coletivo.

Há muita confusão acerca do conceito de democracia. Democracia não é apenas “seguir a vontade da maioria” massacrando as minorias… Mas é buscar soluções em conjunto para que todas as pessoas sejam, de alguma forma, acolhidas e respeitadas. Especialmente em um espaço público.

Por isso, nossa postura em relação às datas comemorativas tradicionais é firme, mas não é fechada. Ela tem princípios, mas pode se configurar de muitas maneiras alternativas. Mantendo a legalidade, a consciência, o diálogo, a inclusão, a qualificação pedagógica… Tentamos, então, dar um passo em direção ao futuro… E estamos conseguindo.

E ENTÃO… NÃO COMEMORAMOS MAIS NADA?

Mas nós gostamos de festa! Gostamos de celebrar! Há muitas datas interessantes que podemos recuperar, criar. Há muitas situações interessantes para viver com as crianças na escola, e nós agora estamos nesse momento… Em busca desse calendário alternativo.

Assim sendo, podemos não comemorar mais o “dia das mães”, ou o “dia dos pais”… Mas podemos fazer o “dia de quem cuida de mim”, que inclui todas as crianças e famílias que desejarem participar.

Podemos não mais fazer a “festa junina” tradicional da igreja católica, mas podemos fazer a “festa da cultura brasileira”.

Podemos não mais fazer comemorações sem sentido no “dia da mulher”, “dia do índio”, “dia da abolição da escravatura”. Mas podemos respeitar as lutas desses grupos e celebrar, com eles, as suas datas importantes.

Podemos não mais comemorar o “natal”, e a “páscoa”, datas religiosas extremamente tomadas pelo consumo. Mas podemos comemorar o “dia da solidariedade”, o “dia da gentileza”, o “dia da comunidade”. Por que não?

“Dia do livro”, “semana internacional do brincar”, “dia da poesia”, “dia da arte”… São muitas as possibilidades de festa, celebração e consciência.

Vamos celebrar?

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Comentários em: "DIAS LEGAIS PARA COMEMORAR PARTE II – UMA CONVERSA COM AS FAMÍLIAS" (3)

  1. Edu Chammas disse:

    Olá!

    Somos de uma escola da rede particular da cidade de São Paulo e tivemos contato com o blog de vocês. Consideramos excepcional a produção de vocês no blog! Parabéns pelas reflexões!

    Um texto específico nos chamou muito a atenção: o texto sobre as datas comemorativas. Se possível, gostaríamos de republicá-lo em uma publicação de circulação interna da escola destinada aos educadores da instituição, com citação da fonte e referência ao blog.

    Vocês autorizam a publicação? Depois, podemos enviar a vocês um exemplar da revista…

    Agradecemos desde já a colaboração!

    Abs,
    Eduardo

  2. Joseleine de Campos Gomes disse:

    Olá!
    Sou de uma escola pública em outro município e estamos vivendo esta situação de “cobrança” das famílias para as comemorações de datas tradicionalmente comemoradas nas escolas e que nos últimos anos não tem acontecido. Ao ler o texto do blog muitas reflexões pude fazer com relação ao processo de ” corte” realizado na minha escola neste sentido e que apesar de não mais comemorarmos muitas destas datas, todos os anos precisamos de argumentos para convencer a comunidade que não cabem em nosso PPP. Porém percebo que o processo tem sido equivocado, pois não mais comemoramos estas datas formalmente, mas também pouco temos nos dedicado a organizar novas propostas neste sentido. Em um ditado popular ” jogamos o bebê junto com a água da bacia”. Gostaria de utilizar parte do material do blog em uma circulação interna para os pais , evidentemente apontando a referencia, pois não entendo que encontrarei argumentos melhores para de fato iniciarmos uma discussão séria sobre o tema em minha escola.
    Muito agradecida pela contribuição de vcs!

  3. Andreza disse:

    Parabéns ao grupo escolar. Represento u.a escola de educação infantil em Santa Catarina e nossa postura é exatamente igual a de vocês. Uma pequena que a grande maioria dos profissionais ainda veem com maus olhos esse diálogo e reflexão. E somos festeiros também! Celebramos o amor, a festa junina em caráter cultural, festa da família, a infância com brincadeira diferenciadas. Nossa escola é aberta às famílias e as vemos como parceiras. Talvez seja o sucesso da nossa proposta.
    Mesmo sendo minoria, acredito que mexemos com a educação e cim os professores.

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