EMEI Jardim Monte Belo – um lugar pra ser feliz!

Arquivo para a categoria ‘Atenção! Crianças Aprendendo…’

DIAS LEGAIS PARA COMEMORAR PARTE II – UMA CONVERSA COM AS FAMÍLIAS

Texto: Professora Karina Cabral

capa

Tempos atrás, postamos um texto em nosso blog que virou campeão de acessos e provocou muitas outras conversas com educadores e educadoras, via e-mail, encontros, discussões, fóruns – você pode ler o texto AQUI. Ele trata sobre a nossa postura em relação à comemoração de datas que as escolas infantis tradicionalmente comemoram. Esclarecemos, em nossa escrita, parte de anos de nossas discussões internas. Entendemos nosso papel como educadoras e educadores de escola pública. E a escola pública é laica ( não professa religião nenhuma ), inclusiva, consciente dos fatos de nossa História ( sempre contada pelos  dominantes, nunca pelos dominados ) e não pode incentivar o consumismo. Embora não fosse, na época, uma postura comum, era uma postura de acordo com as leis do nosso país ( Constituição Federal – 1988, e Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB – 9394/96 ) e também de acordo com os ideais de uma educação democrática, para todos e todas, sem deixar ninguém de fora.

O texto rendeu muitas discussões, mas percebemos que faltava uma conversa que era a mais importante – com as famílias das crianças de nossa escola. Nas reuniões de Conselho de Escola, esse tema surgiu várias vezes. Todos os anos, metade dos alunos da escola vão para o Ensino Fundamental, e recebemos novas crianças. Essas novas famílias precisam entender nosso ponto de vista sobre esse assunto, tirar as dúvidas e dar sua opinião. E toda vez que essa troca acontece, também nos faz mudar de perspectiva, confirmando ou mudando nossas posições.

Aqui está o registro escrito da conversa que tivemos na última reunião de famílias e educadoras, este ano.

POR QUE COMEMORÁVAMOS DATAS NA ESCOLA?

Tempos atrás, aqui na EMEI Jardim Monte Belo, era comum comemorarmos essas datas na escola. É uma prática antiga, e que fazíamos sem pensar. Páscoa, dia das mães, festa junina, dia das crianças, dia do índio, dia disso, dia daquilo… Muitas escolas baseiam todo o seu planejamento educativo nessas datas. Mas aos poucos, começamos a nos perguntar SE deveríamos comemorar essas datas, e POR QUE deveríamos comemorá-las. E as respostas vieram… E atrás delas outras perguntas:

“Precisamos de temas para atividades pedagógicas.”

Mas…

Se estamos construindo um projeto pedagógico sério, estudando as melhores formas de educar as crianças, precisamos mesmo “disfarçar” as atividades em temas supostamente agradáveis?

“Todo mundo faz essas comemorações, é um costume.”

Mas…

De onde vem esse costume? Que ideologias estão por trás dele? Compactuamos com essa ideologia? A escola é um lugar de transformação ou reprodução do meio social?

“Fazemos isso para homenagear um determinado grupo de pessoas.”

Mas…

Será que essas pessoas estão sendo homenageadas da melhor forma? Comemorar o “dia do índio” é mesmo dar voz a um povo que é massacrado todos os dias? Comemorar o “dia da mulher” é falar sobre a luta das mulheres? Comemorar o dia das mães da maneira tradicional é respeitar as novas formatações de família que temos em nossa sociedade, e entre nossas crianças? Por que valorizar tanto o dia das mães, e negligenciar o dia dos pais?

“É um jeito de divulgar nosso trabalho para as famílias.”

Mas…

Será que as famílias não são capazes de compreender a fundo nossa proposta pedagógica, se explicarmos a elas? Será que um enfeite ou presentinho falará mais do que um debate, uma reflexão em grupo, uma conversa aberta, uma formação para os pais e mães?

“É uma desculpa para fazermos festas e brincadeiras para as crianças, elas gostam e se divertem.”

Mas…

A escola não deveria ser um lugar divertido e prazeroso para as crianças sempre? Não deveria ser um lugar  de brincadeiras, de ludicidade, de infância todos os dias do ano?

“As datas aproximam as famílias da escola.”

Mas…

Será que não podemos chamar as famílias em outras oportunidades, para vivenciar o trabalho da escola como ele é no cotidiano, e não apenas em uma ocasião “produzida” para isso?

“As datas ensinam valores religiosos, afetivos e morais importantes para as crianças.”

Mas…

Que valores são esses? Temos o direito de pisar em determinados terrenos sem permissão e tirar da família certas escolhas sobre a educação das crianças? Como fazemos com as crianças que são excluídas dessas comemorações por motivos afetivos, econômicos, sociais, religiosos? Manteremos essas pessoas à margem do padrão?

COMO FOI O NOSSO PROCESSO DE DISCUSSÃO?

Diante de tantas perguntas, pensamos, como grupo, que algo estava muito errado, e precisava mudar.

Partimos para um estudo detalhado sobre o tema de cada data, e também sobre as datas em si. Entramos em contato com os movimentos organizados da sociedade sobre as lutas das mulheres, dos índios, dos negros, e aprendemos muitas coisas.

Paralelamente à nossa discussão, foram acontecendo mudanças em nosso país também. Leis educacionais foram sendo promulgadas, garantindo direitos a grupos que antes eram desprezados pela sociedade ( Lei 10639/2003, e Lei 11645/2008). Começamos a entender que a escola só será para todos quando todos e todas forem estiverem dentro dela, podendo ser quem são, e tendo a origem, cultura e opções de vida respeitadas.

Começamos a fazer pequenas mudanças. Retiramos o viés de consumo e individualidade de datas como a páscoa. Paramos de comemorar datas que não tinham sentido para nós. Fomos eliminando algumas comemorações que não diziam respeito às crianças, e, ao mesmo tempo, nosso Projeto Político Pedagógico foi ganhando corpo, e mudando a nossa concepção de infância e de educação para a infância.

Nenhuma ação fica sem reação, e, claro, as famílias estranharam as mudanças. Abrimos um diálogo difícil, mas necessário com elas. Tocar nesse assunto é romper paradigmas; isso causa medo, insegurança; e muitas coisas precisam ser discutidas para que cheguemos a um consenso.

Amadurecendo e estudando cada vez mais… Chegamos, enfim, a um rompimento com essa prática. Abolimos as comemorações de páscoa, dia das mães, natal… E transformamos o caráter da festa junina e do dia das crianças. Foi um momento de postura radical do grupo, que já não via sentido nisso tudo.

Mas percebemos que esse também não era o caminho. Não há problema em comemorar… O problema é o que se comemora, e como se faz isso. E foi então que partimos para uma reelaboração do calendário de datas comemorativas da nossa EMEI.

FALAR DE DATAS COMEMORATIVAS NA ESCOLA É FALAR DE VALORES…

Percebemos que a ideia de valor é sempre individual ou social, nunca absoluta. Cada sociedade elege, em seu tempo, lugar e cultura, o que vai transformar em “valor” ou não. E se é assim, começamos a pensar em quais valores identificávamos em nossa sociedade. E percebemos que eles não eram, de fato, nossos, e não eram os valores que queríamos acordar com as crianças e famílias que passavam por aqui.

  • Nossa sociedade é baseada em individualismo… Cada um por si, e quem pode mais se dá melhor.

Mas nós pensamos em coletividade, em convivência mútua!

  • Nossa sociedade é baseada em meritocracia… Você ganha mais coisas tanto mais consegue produzir ou fazer, ainda que as condições não sejam as mesmas para todos no início.

Porém, acreditamos em solidariedade, justiça e igualdade!

  • Nossa sociedade é baseada em consumismo… Quanto mais você tem, mais você é valorizado.

Mas nós queremos valorizar o que as pessoas são, e não o que elas têm!

  • Nossa sociedade é baseada em esperteza… Não importa o que você faça, apenas tenha sucesso.

Mas nós buscamos a ética nos relacionamentos, onde ninguém passa ninguém para  trás para se dar bem, ainda que isso lhe custe algumas desvantagens!

  • Nossa sociedade é baseada em violência, exclusão e intolerância… Resolvemos os problemas da convivência com agressões, com discursos duros e egoísmo.

Mas nós queremos que nossas crianças respeitem todas as pessoas como são, aceitem a diversidade, incluam a todos e todas e sejam pacíficas!

  • Nossa sociedade é baseada em alienação… Fazemos as coisas no “automático”, sem pensar, refletir ou transformar; colocamos a nossa mente em uma tela de TV, celular ou computador e não observamos o que estamos fazendo com o mundo, com a natureza, com as outras pessoas, e conosco.

Mas nós acreditamos na consciência, responsabilidade, na capacidade de pensar e mudar as coisas para melhor!

  • Nossa sociedade é baseada em autoritarismo… Obedecemos ordens que nem sabemos de onde vêm, e o poder individual é sempre valorizado.

Mas nós acreditamos em diálogo, democracia e em construção de poder coletivo, dividido!

O trabalho com datas comemorativas, muitas vezes, reforçava valores da sociedade que temos, e não da que queremos ter.

COLETIVO, ESCOLA PÚBLICA E DEMOCRACIA

A palavra “coletivo” vem do latim “collectivus”, que significa “aquilo que agrupa, que ajunta” (fonte: site Origem da Palavra). Portanto, para fazer um coletivo, não podemos buscar o que entre nós é desacordo, é separado, é motivo de afastamento; buscamos aquilo que nos une.

E sendo assim, não vamos discriminar ninguém – de nenhum tipo de configuração familiar, religião, posição política. Não vamos sacrificar as posições de nenhuma família para fazer uma comemoração que é familiar, ou de um determinado grupo religioso; não vamos fazer o que é de todos e todas algo que é apenas de alguns e algumas.

A escola pública não é o quintal da casa de ninguém. Ela não é prolongamento de nenhuma família. Ela é um espaço que é, ao mesmo tempo, de todos e todas, mas não só desse ou daquela. É uma ideia difícil de entender, mas fácil de viver se conseguirmos nos respeitar e aceitar que  a nossa origem, as nossas posições, o nosso modo de ser, viver, pensar a vida não é o único… É só mais um, em um coletivo.

Há muita confusão acerca do conceito de democracia. Democracia não é apenas “seguir a vontade da maioria” massacrando as minorias… Mas é buscar soluções em conjunto para que todas as pessoas sejam, de alguma forma, acolhidas e respeitadas. Especialmente em um espaço público.

Por isso, nossa postura em relação às datas comemorativas tradicionais é firme, mas não é fechada. Ela tem princípios, mas pode se configurar de muitas maneiras alternativas. Mantendo a legalidade, a consciência, o diálogo, a inclusão, a qualificação pedagógica… Tentamos, então, dar um passo em direção ao futuro… E estamos conseguindo.

E ENTÃO… NÃO COMEMORAMOS MAIS NADA?

Mas nós gostamos de festa! Gostamos de celebrar! Há muitas datas interessantes que podemos recuperar, criar. Há muitas situações interessantes para viver com as crianças na escola, e nós agora estamos nesse momento… Em busca desse calendário alternativo.

Assim sendo, podemos não comemorar mais o “dia das mães”, ou o “dia dos pais”… Mas podemos fazer o “dia de quem cuida de mim”, que inclui todas as crianças e famílias que desejarem participar.

Podemos não mais fazer a “festa junina” tradicional da igreja católica, mas podemos fazer a “festa da cultura brasileira”.

Podemos não mais fazer comemorações sem sentido no “dia da mulher”, “dia do índio”, “dia da abolição da escravatura”. Mas podemos respeitar as lutas desses grupos e celebrar, com eles, as suas datas importantes.

Podemos não mais comemorar o “natal”, e a “páscoa”, datas religiosas extremamente tomadas pelo consumo. Mas podemos comemorar o “dia da solidariedade”, o “dia da gentileza”, o “dia da comunidade”. Por que não?

“Dia do livro”, “semana internacional do brincar”, “dia da poesia”, “dia da arte”… São muitas as possibilidades de festa, celebração e consciência.

Vamos celebrar?

Anúncios

BOAS PRÁTICAS DE 2015 – LITERATURA E CULINÁRIA, QUE CASAMENTO GOSTOSO!

Por Professora Priscila Amorim

A professora Priscila desenvolveu com sua turminha do 6D um projeto interessante, que uniu leitura de vários tipos de texto, oportunidades diferentes de escrita, culinária, oportunidade de interagir com muitas linguagens de conhecimento… E muita diversão entre os pequenos.

A partir de algumas histórias que as crianças gostavam, e que tinham como ação dos personagens o envolvimento com alguma comida gostosa, as crianças foram recolhendo e inventando receitas, escrevendo registros, desenhando, fazendo propostas, gráficos, tomando decisões, partilhando… Cozinhando!

O resultado está nesse delicioso livro que a classe montou como registro do projeto, e que a professora Priscila divide aqui com vocês agora.

Apreciem! 🙂

Slide1 Slide2

Slide3 Slide4

Slide5 Slide6 Slide7 Slide8 Slide9 Slide10 Slide11 Slide12 Slide13 Slide14 Slide15 Slide16 Slide17 Slide18 Slide19 Slide20 Slide21 Slide22 Slide23 Slide24 Slide25 Slide26 Slide27 Slide28 Slide29 Slide30 Slide31 Slide32 Slide33 Slide34 Slide35 Slide36 Slide37 Slide38 Slide39 Slide40 Slide41 Slide42 Slide43 Slide44 Slide45 Slide46 Slide47 Slide48 Slide49 Slide50 Slide51 Slide52 Slide53

ARTE NAS ALEGRIAS DE QUINTAL – CRIAÇÃO COM LIBERDADE E PRAZER!

 

O percurso criativo depende de materiais adequados? De aprender técnicas interessantes? De conhecer e copiar a obra de grandes artistas? De tudo isso junto? Para nós, o percurso criativo depende de tudo isso sim, mas principalmente liberdade de escolha e prazer. Acompanhe essa reflexão sobre arte, apresentada no COPEDI – Congresso Paulista de Educação Infantil e no Seminário de 80 anos da Educação Infantil da DRE Pirituba/Jaraguá e perceba como as crianças podem nos surpreender com suas produções quando  têm liberdade de escolha e de criação. 

Por Professora Karina Cabral

20140729_115500 20140730_141915 20140730_144017 20140801_140455 20140801_151537 20140811_141055 20140812_114400 20140813_115421 20150914_114202 20150916_121549 20150916_135240 20150916_135301 20150916_141205 20150916_141343

Arte e Infância: um encontro que muda tudo

Por que acontece? Nossos justos motivos

Na EMEI Jardim Monte Belo temos dois grandes anseios: fazer da escola realmente um lugar de infância e dar às crianças o justo direito de viver a autonomia, as relações e a expressão de linguagens.

Desde 2013, vivemos o projeto Alegrias de Quintal. Durante parte do tempo das crianças na escola, as educadoras oferecem várias atividades em espaços externos à sala das turmas. As crianças, todas juntas, escolhem o que, quando, com quem, por quanto tempo e onde querem fazer suas atividades (incluindo o almoço). As crianças são, assim, donas de seu tempo e de suas possibilidades de aprender.

Até chegar a essa configuração, foi um longo caminho. Tivemos que amadurecer, como educadoras, a ideia de que as crianças têm direito à infância, mas também amadurecer a nossa confiança nas capacidades delas, revendo nossos paradigmas como educadoras. Saímos do papel de “ensinadoras” para o papel de mediadoras e isso exigiu de nós estudo, reformulação pessoal e profissional, muitas conversas com todos envolvidos, reflexões, muitas tentativas, erros e acertos… E principalmente, muita parceria – entre nós educadoras, as famílias, a gestão e as crianças.

Hoje, temos um projeto institucional estabelecido, que muito nos alegra e nos realiza.

Todas as atividades do quintal são planejadas. E fazemos isso em conjunto em nossas reuniões semanais. Tentamos estabelecer desde o início do projeto, objetivos comuns e a partir deles, definir quais práticas contemplariam o que achamos essencial para as crianças viverem na escola – sempre atentas às respostas delas, chamando-as também para participar desse planejamento ao ouvi-las.

Pensando sobre as atividades que ofereceríamos no momento das “Alegrias de Quintal”, elencamos quatro linguagens que são fundamentais para nós: a brincadeira, a expressão artística, o movimento, e a comunicação com outras pessoas – afetiva, oral, textual, gestual. Outras linguagens de conhecimento também são fundamentos de nossas práticas, mas essas quatro áreas estão sempre contempladas em nossas propostas, posturas e atitudes junto às crianças.

Não foi fácil definir objetivos para a área de artes. Estávamos acostumadas, bem antes, a ver a arte como reprodução de padrões estéticos considerados “perfeitos”; e depois disso, até tentávamos estimular a criação, com sequências didáticas e projetos que ajudavam as crianças a experimentar materiais, conhecer técnicas, apreciar imagens… Mas ainda não era criação. Estávamos ainda presas à ideia de “ensino” da arte. Continuamos achando ser necessário apresentar experiências dirigidas para as crianças. Porém, percebemos que o “quintal” podia ser o momento tão aguardado, por nós e por elas para expressão mais livre.

Em Artes, queríamos oferecer atividades que motivassem a criação e ao mesmo tempo ampliassem o universo cultural das crianças. No “quintal” as crianças podem estar envolvidas ou não nas atividades artísticas, conforme suas escolhas; elas são livres para criar ou não. Sendo assim, queríamos “seduzi-las” para a possibilidade criar algo que fizesse sentido para elas, ampliasse seus conhecimentos e desse a elas o prazer da criação.

Mas, o que é criação? A história da relação da escola com a Arte é marcada por uma série de equívocos nesse sentido. Por muito tempo, pensávamos que a criação artística era uma espécie de artesanato, um treino – sabia desenhar, pintar, colar quem melhor imitasse algum modelo, ou alcançasse um padrão que considerássemos ideal para a idade. Nesse tempo, víamos apenas reproduções. Ninguém cria na mera aprendizagem de técnicas.

Depois, passamos para outro extremo, onde pensávamos ser proibido interferir nos processos das crianças, crendo na espontaneidade total; o que vimos foi um empobrecimento das criações. Ninguém cria no vazio. A criação depende de um delicado e difícil equilíbrio entre nossas experiências estéticas, ousadias, desejo, contato com recursos concretos; é nosso mundo interno – imaginação e capacidades cognitivas – querendo ser expresso em uma bela imagem. A arte pode ou não ter a intenção de comunicar algo a alguém; mas a criação é sempre fruto de expressão genuína de quem faz a arte. E nossos pequenos têm direito a experimentar essa linguagem com intensidade… Têm o direito de criar.

Mantivemos essa visão de arte e criação em mente. E junto a ela, nossa consciência que o foco das “Alegrias de Quintal” concentra-se na autonomia. A estrutura do projeto torna impossível planejar uma atividade em passos rígidos, com começo, meio e fim, uma vez que as crianças podem entrar e sair da atividade a qualquer momento. Foi hora, então, de definir objetivos gerais para as propostas de arte. Chegamos a quatro deles.

Queremos que cada uma das crianças:

  • Desenvolva autonomia ao exercer seu direito de escolha real, escolhendo, inclusive, apenas apreciar a arte, ou expressar-se através dela;
  • Tenha contato com diferentes fazeres artísticos na escola e fora dela;
  • Experimente e aprenda o uso de diversos materiais de qualidade e várias técnicas de expressão artística;
  • Sinta-se segura para criar a sua própria estética, apreciando, também, as produções dos colegas e outras referências artísticas da nossa cultura.

Começamos a nos arriscar em propostas de arte abertas, que tinham como fundamento a fruição, o contato livre, o desejo das crianças, as trocas entre elas, e delas com as educadoras. Não apenas no ateliê – espaço propício para esse tipo de atividade – mas também em outros espaços da escola, começamos a colocar possibilidades de pintura, desenho, colagem, instalações, montagens, cartonagem… Todas com o intuito de facilitar esse encontro das crianças com a arte. As crianças, seguras, começaram a criar coisas que superaram – e muito – nossas expectativas.

A cada quinzena as educadoras mudam de proposta e de espaço, mas temos alguns princípios práticos comuns em relação à arte:

  • Oferecer materiais suficientes e de qualidade;
  • Deixar que as crianças experimentem os materiais e as técnicas quantas vezes quiserem;
  • Produzir, experimentar, expor junto com as crianças;
  • Orientar a produção das crianças bem de perto, dando sugestões, fazendo questionamentos, alimentando as ideias, conversando com elas da forma mais horizontal possível;
  • Oferecer boas referências às crianças sobre as técnicas e/ou materiais trabalhados;
  • Ajudar as crianças na organização das atividades;
  • Chamar a atenção das crianças para as produções dos colegas;
  • Ater-se a detalhes do que estão fazendo.

Estas são posturas de mediação que todas procuramos ter e que nos afastam do mero ensino de técnicas. É um caminho fascinante, delicioso… Que também nos motiva a continuar sendo criadoras e recriadoras de nossa própria arte, de nossa própria prática.

Nas experiências de arte também aparecem vários temas importantes. Questões de gênero e etnia, padrões estéticos, a beleza; a cooperação; a coletividade e a individualidade; a apreciação; maneiras de lidar com o tempo; organização pessoal e coletiva. São muitos os aprendizados adjacentes às propostas de arte nas “Alegrias de Quintal”.

Depois de tantas experiências positivas, para nós ficou possível descrever o que é a criação. É um processo de escolha – escolha do que introjetar, do que externar; do que usar ou não usar; do que vai ser compartilhado, do que vai ser só seu… E assim por diante. Estamos nesse processo com elas e por elas. E hoje o que vemos é a arte enchendo as paredes da nossa escola, enchendo nossos olhos e nossa experiência, o que nos motiva a ousar cada vez mais.

Vejam como a proposta de misturar cores foi crescendo e ganhando corpo coletivo, e como essa experiência de criar painéis coletivos viraram também produções individuais, onde as crianças misturaram cores com muito método… Criando belas imagens!

20141106_142721 20141110_135951 20141107_115455 20141107_115503 20141113_134030 20141113_134145 20141113_134239 20141113_134313 20141113_134538 20141113_135929 20141114_140027 20141107_134822 20141110_120346 20141110_135142

Como acontece? A arte invadindo o nosso quintal

Nosso trabalho com Artes nas “Alegrias de Quintal” caminha em três direções.

Algumas propostas são permanentes, ou seja, são oferecidas sempre. Acreditamos que alguns braços das linguagens artísticas, como o desenho e a construção, precisam estar todos os dias à disposição das crianças. Como atividades permanentes, temos espaços onde as crianças independem da supervisão direta de adultos para criar. É o caso da mesa de desenho livre (onde há suportes e materiais para desenhar), dos tapetes de materiais não estruturados ( onde as crianças podem construir arranjos estéticos) ou da parede de azulejos para pintura. Há também possibilidades de apreciação visual nos murais e paredes da escola, onde se pode olhar imagens produzidas por artistas ou por colegas.

Temos também algumas propostas auxiliares de arte. Nessas propostas, a arte é mais um recurso em um espaço onde outras atividades estão acontecendo. É quando, por exemplo, colocamos arte no parque, em um cantinho de brincadeira, ou no canto de descanso. Pode-se desenhar com giz ou gelo na quadra; ter um plástico no parque para desenhar; modelar massinha em um canto de brincadeira; pintar um pedaço do muro da escola; desenhar um boneco para brincar no canto das madeiras, e assim por diante.

20150320_135904

A arte ajudando a fazer pista de carrinho…

20150305_142200

Bonecos para brincar…

20140925_140123

E modelando massinha, a gente faz uma festa de aniversário!

E temos também as propostas de oficinas, onde há um tema e/ou técnica sugerida diretamente às crianças na quinzena. Nas oficinas quinzenais, as crianças têm oportunidade de aprofundar-se em uma possibilidade de arte, em um movimento que é só delas. Já passamos por várias experiências e fases. Há as crianças que sempre procuram as artes, e outras que vêm para essas oficinas conforme a proposta. Algumas delas chegam a ficar quase que todo tempo envolvidas no trabalho, seja observando ou produzindo algo.

A professora responsável fica no espaço e faz uma proposta aberta (mas com objetivos específicos) às crianças: fazer um painel grande de desenho e/ou pintura; trabalhar com mosaicos; construir máscaras; passar por uma oficina de percurso que mistura todos os materiais; fazer um retrato, ou autoretrato; formar um painel com colagem; modelar com argila; criar mandalas; construir brinquedos com sucata; pintar caixas de papelão para fazer carrinhos; fazer tinta com farinha; desenhar modelitos de roupas… E muitas outras possibilidades.

Aqui, a proposta de uma oficina de mandalas. No início, copiando modelos, depois, descobrindo os próprios traços… As crianças foram se superando em criar arranjos simétricos de cores e formas, que produziram belos painéis e produções:

20150504_115551 20150505_115521 20150508_120846 20150508_121108 20150601_115934 20150527_120820 20150522_141055 20150519_140834 20150513_140031 20150603_121305 20150603_141029

Considerações Finais

Com o tempo e a grande troca que acontece no quintal (a prática das crianças nos aprimorando como educadoras, e nós ajudando-as a avançar) percebemos que os limites para a criação existem, mas não estão nas crianças. Elas são capazes de “quase” tudo! Quem coloca o limite desse “quase” somos nós, adultas.

Com o tempo, nossa postura de mediação nessas oficinas foi mudando. Fomos entendendo o movimento das crianças. Percebemos que elas, frequentemente, nos surpreendem. Criam outros usos para os materiais. Trazem ideias de casa, fazem esboços, tentam muitas vezes e são extremamente exigentes consigo mesmas, colocando-se desafios. Percebemos que o fato de produzirmos junto com elas não as direciona para nossa estética, pelo contrário; compõe com a estética delas, e assim elas se sentem próximas de nós. Percebemos também que nossa relação de afeto com elas muda tudo. Elas se sentem seguras para conversar, para compartilhar coisas, para perguntar, para chorar ou rir conosco, ou perto de nós; toda essa relação de afeto aparece expressa no que estão fazendo.

Temos muitas imagens belíssimas das produções das crianças para mostrar. E também algumas imagens do processo de criação delas. Mas essas imagens não dão conta de explicar o que acontece de fato ali. É um processo de troca retroalimentado que, ao mesmo tempo, motiva e desafia a querer sempre mais.

As crianças podem escolher se levam ou não suas produções pessoais para a casa. Temos espaço de exposição dos trabalhos. Ao longo da quinzena, o trabalho vai amadurecendo, atingindo outras complexidades e contornos, enquanto as crianças ganham mais habilidade com os materiais e desenvolvem mais ideias. Às vezes, de acordo com a escolha das educadoras e das crianças, as oficinas permanecem por mais algum tempo. Os resultados são surpreendentes. É impressionante como a criação das crianças ficou mais livre e alcançou um nível de qualidade visual que nós não imaginávamos ser possível para os pequenos.

Percebemos que as crianças têm muita habilidade e um olhar estético apurado, muito propenso a se desenvolver rapidamente. Elas são críticas em tudo que fazem, e gostam de se superar. Gostam de trabalhar juntas – uma ajuda, estimula e avalia a outra.

Dividimos também esses resultados com as famílias, à medida que expomos o trabalho das crianças no mural da escola, sempre com textos que explicam o processo de criação e contam um pouco sobre nossas propostas. Usamos também o blog de nossa escola para divulgar essas práticas para as famílias e entrar em contato com outros educadores e educadoras que nos provocam novas reflexões.

Vemos também que a postura em relação à arte que é comum nas “Alegrias de Quintal” “vazou” para o trabalho que acontece nas salas de aula. Cada vez mais temos refletido todas juntas sobre o assunto, tentando abrir possibilidades de criação também nos cantinhos de artes que temos nas salas, alcançando o equilíbrio entre oferecer o contato com novas técnicas e materiais e deixar que as crianças usem esse conhecimento adquirido para criar livremente.

Continuamos tentando ser tão criativas quanto as crianças para propor coisas cada vez mais livres e cheias de possibilidades, abordando vários aspectos da linguagem artística. Para nós, também é um aprendizado superar a tendência de ver a arte como padrão, ou ato de mero ensino de técnicas. Buscamos o equilíbrio, em nossa mediação, entre a orientação direta e a espontaneidade.

As artes nas “Alegrias de Quintal” também são motivo de tudo que envolve o ideal da arte da nossa profissão: o prazer, a alegria de criar, a beleza, a cultura, o celeiro de ideias… A criação partilhada e renovada em nossa vontade de ir além.

É isso o que a arte faz: um muro velho e descascado vira um show de cores, formas, desenhos, experimentações. A criação é livre, e a aprendizagem também!

20150728_114421 20150728_120027 20150729_114619 20150730_115055 DSC00873 DSC00884 DSC00887 DSC00933

Referências

 

BRASIL. Parecer CNE/CNB nº20/2009. Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Diário Oficial da União. Brasília, D.F., 11 de Nov. 2009

 

GOBBI, Márcia e LEITE, Maria Isabel. O desenho da criança pequena: distintas abordagens na produção acadêmica em diálogo com a educação. Disponível em: <http://biblioteca.esec.pt/cdi/ebooks/docs/Gobbi_desenho.pdf>. Acesso em Setembro/ 2015

 

IAVELBERG, Rosa. Para gostar de aprender arte. Porto Alegre, Artmed, 2003.

 

MAY, Rollo. A Coragem de Criar. Rio de Ja

NOSSO QUINTAL É ALEGRE… NOSSO QUINTAL É DA INFÂNCIA! – O QUINTAL DA LUCIMAR

Por Professora Lucimar Apª Bittencourt Lara

A professora Lucimar revela, em seu relato, a qualidade das relações que tem com as crianças e também algumas possibilidades de propostas para a quadra; mas, além disso, revela também a flexibilidade de seu planejamento, ao compartilhá-lo com as crianças.

Slide1 Slide2 Slide3 Slide4 Slide5 Slide6 Slide7 Slide8 Slide9 Slide10

 

 

O NOSSO QUINTAL É ALEGRE… O NOSSO QUINTAL É DA INFÂNCIA – O QUINTAL DA CAROLINA E DAS CRIANÇAS

Por Professora Carolina Lemos Roland

Slide1

Slide2

Slide3

Slide4

Slide5

Slide6

Slide7

Slide8

Slide9

Slide10

Slide11

Slide12

Slide13

Slide14

VIVÊNCIAS DO PERÍODO INTERMEDIÁRIO – PROJETO UNIVERSO CORPO

olhar demoradamente e tocar o rosto do outro – um prazer, e uma lição para a vida…

Professora Karina Cabral / Professora Lucimar Bittencourt Lara

POR QUE AS VIVÊNCIAS COM O CORPO?

                Com a nova realidade institucional das EMEIs na Prefeitura de São Paulo – o aumento do período de permanência das crianças na escola de 4 para 6 horas diárias – nos deparamos com um desafio: como tornar esse tempo de 2 horas agradável, produtivo e inovador para as crianças?

Sabemos que em muitas escolas o aumento do tempo foi apenas uma extensão do período “normal”; mesmo com a troca de professoras, as crianças continuam se alimentando, brincando e aprendendo da mesma forma que faziam antes. E ouvimos muitos relatos de colegas de outras escolas falando sobre como os pequenos se sentem cansados, as professoras desmotivadas e a rotina da escola acaba apenas reforçando uma visão em que a criança tem pouca autonomia.

Também observando experiências positivas, pensamos que essas 2 horas poderiam ser gerida de forma diferente. E no ano de 2011 começamos um projeto de proporcionar vivências interessantes para as crianças, em linguagens que são menos contempladas na sala de aula. Cada professora montou um projeto de dois meses – música, jogos, construção de brinquedos, teatro e brincadeiras tradicionais – e as crianças puderam rodiziar entre eles a cada dois meses. Foi realmente um tempo diferente para elas, onde puderam viver experiências bem interessantes.

Na avaliação do projeto, percebemos que nossa ideia, embora fosse muito proveitosa, tinha que passar por alguns acertos. Por exemplo, menos trocas de professoras, para que os vínculos entre adultos e crianças fossem mais preservados; a troca de linguagens, para que as crianças não repetissem as mesmas experiências; e o estabelecimento de parceria entre as educadoras, para que os conjuntos de vivências não ficassem tão isolados uns dos outros.

A partir dessa avaliação, planejamos para o ano de 2012 dois grandes grupos de oficinas, com intenção de que durem 1 semestre cada uma: um projeto sobre meio ambiente, e um sobre o corpo e suas possibilidades de interagir com outros corpos e com o mundo.

OBJETIVOS GERAIS – VIVÊNCIAS DO PERÍODO INTERMEDIÁRIO

É nossa intenção que…

  • O tempo que as crianças passam na escola seja prazeroso e propicie vivências de autonomia;
  • As linguagens pouco contempladas no período de 4 horas sejam valorizadas pelo projeto;
  • Haja uma ampliação da possibilidade de interação com outros alunos, professoras e funcionários da escola;
  • As crianças possam interagir em diferentes ambientes, com diferentes bens culturais.

UNIVERSO CORPO

                Há muito o corpo foi colocado para fora da escola. Habituados a uma visão separatista do ser humano, esquecemos que somos um só. Mente, afeto, corpo – tudo faz parte de nós e nos faz ser quem somos. Esse ser integral está no mundo em contato com a natureza, com outros seres vivos, e também outras pessoas como ele.

meninos e meninas redescobrindo o prazer de explorar a pele em contato com a água e areia

Mas a realidade de hoje é tão complicada… Vivemos em um mundo consumista, individualista, onde as pessoas perderam a dimensão do que é se relacionar com outro ser humano, tocando-o, observando-o, respeitando-o. É um mundo que se confronta com o uso abusivo dos recursos naturais. Um mundo onde o tempo, cada vez mais escasso, impede que se dê valor ao prazer de ver o pôr-do-sol, de observar as nuvens no céu, de esperar o tempo passar, de ruminar os acontecimentos e sentimentos.

soprar a água, sentir o vento, ouvir os pássaros, ou simplesmente respirar… quantas possibilidades do corpo podemos trazer à tona em ações simples?

E o corpo das crianças também sofre os efeitos de tudo isso. Um corpo ansioso por movimento, mas preso nos espaços pequenos das casas e apartamentos. Um corpo desejoso de toque, mas cerceado pelo medo dos relacionamentos. Um corpo capaz de sentir e apreender o mundo, mas podado pela falta de tempo de sentir o sabor, o cheiro, a textura das coisas. Um corpo ansioso por simplicidade e silêncio, mas excitado por inúmeros estímulos visuais e sonoros que nem sempre consegue aproveitar e distinguir. Um corpo pronto para o mundo, mas negado por ele…

Pensamos em trazer de volta para as crianças vivências que ofereçam a elas a oportunidade de deixar esse corpo fluir, crescer, se relacionar, sentir. Vivências que ajudem a perceber o mundo através desse corpo… A conhecer melhor a si mesmas… A conhecer melhor os outros que estão mais próximos.

o prazer também faz parte do currículo escolar…

Tocar o corpo do outro, brincar com ar, com terra, com água… Gritar, ficar em silêncio, perceber a sombra, sentir aromas, sabores… Dançar, brincar, expressar-se pela arte… Usar o tato para tocar em massas, texturas, saliências… Criar, expressar, relacionar-se. Quanta coisa que a escola habitualmente deixa de lado… Quantos saberes possíveis!

o valor de um toque, é inestimável!

Por isso bolamos oficinas que reencontram esse corpo que a escola insiste em esquecer… Queremos conosco crianças inteiras, que se expressem em sua totalidade, com toda a complexidade de seu ser… E que consigam desenvolver habilidades e sentir prazeres que tornam a infância de qualquer pessoa alegre e inesquecível. E os frutos estão vindo! 🙂

 

INCLUSÃO NA ESCOLA MUDANDO A SOCIEDADE EXCLUDENTE!

Hoje é um dia muito especial para a nossa EMEI! A qualidade do nosso trabalho com crianças portadoras de necessidades educacionais especiais foi reconhecida e estaremos no VI Congresso Paulista de Educação Infantil ( COPEDI ) para falar sobre nossos princípios, nossa prática e nossa equipe no tocante à inclusão.

É muito especial para nós mostrar a outros educadores, com alegria e paixão, que a inclusão dá certo!

Segue abaixo o texto que enviamos para o COPEDI. Ele retrata quais são as crenças e ações que guiam nosso trabalho com todas as crianças… Inclusive as portadoras de alguma necessidade especial.

Por Karina Cabral, Ana Damasceno e Lucimar Lara

Imagem

Inclusão: a escola que transforma vidas mudando uma sociedade excludente

A história de nossa EMEI com a inclusão de crianças portadoras de necessidades especiais no contexto escolar, como tantas outras, começou a partir de um direito garantido externamente. Por determinações legais, as crianças com algum tipo de deficiência ou inseridas em alguma situação especial, passaram a ter direito de frequentar a escola regular. A Constituição Brasileira, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e posteriormente as portarias de matrícula da Prefeitura de São Paulo vieram para nós como uma determinação.

Não demorou em que essas crianças começassem a chegar à escola. Recebemos crianças com deficiência física e motora, e também um caso de deficiência intelectual. E embora nossos órgãos superiores tenham sido rápidos em apontar legalmente o direito das crianças, todas elas, de frequentar a escola… Também não demorou em percebemos que estaríamos sozinhas nesse processo, sem apoio institucional, sem orientação ou estudo especial, sem nenhuma mudança estrutural, sem tempo para refletir. As crianças e suas famílias estavam ali, nós também… E era preciso encontrar um modo de tornar esse convívio uma real oportunidade para que todos os envolvidos conseguissem conviver e avançar, de alguma forma, para o ideal proposto – uma escola onde todos tenham oportunidade de estar juntos… Uma escola como sonhou o mestre Paulo Freire – com todos se educando em comunhão.

E foi um longo caminho. Um caminho onde passamos por uma nova formação para os educadores; uma nova visão da equipe; um novo jeito de conversar com as famílias; uma nova visão de mundo; uma longa reflexão sobre a fragilidade e a força humana; um novo jeito de planejar e avaliar as práticas educativas; uma nova visão da função social dos educadores e da escola. Uma grande desconstrução e reconstrução de conceitos, práticas, ideais. E hoje, 10 anos depois, descobrimos que todas as inclusões de crianças com necessidades educativas especiais transformou nossa EMEI em uma nova escola para todos. Aprendemos todos… Todos fomos incluídos em um novo jeito de pensar as relações humanas, dentro e fora do ambiente escolar.

A história da escola, de maneira geral, é de exclusão. Por muitas vezes, ao longo de sua existência, a instituição educativa existiu para reforçar e propagar a diferença que se fazia na sociedade. Pobres, mulheres, negros e outras etnias, deficientes, idosos, pessoas com problemas e desajustes sociais e afetivos… Todos eles, em algum momento – hora de forma aberta e declarada, hora de forma velada – tiveram a porta do conhecimento e do convívio fechada por serem maiorias ou minorias rejeitadas e marginalizadas pela sociedade. Foi, e é uma luta muito grande abrir, escancarar, arrombar essa porta e deixar que todos passem por ela. Uma luta legal, ideológica, prática. E ao tomar parte disso como escola, nos engajamos nessa luta.

São muitas as histórias de sucesso, e poderíamos contar como Guihermes, Gustavos, Anas, Marias, Nicoles, Joãos e tantos outros entraram aqui e, a partir do que viveram na EMEI, conseguiram transpor seus limites. Poderíamos também dizer como receber essas crianças, apesar do medo, da dor, da revolta, do cansaço, mudou a vida de cada um dos educadores da escola. Mas para relatar nossa prática com a inclusão, pensamos no que todas essas crianças, seus pais e os educadores que passaram por aqui e cuidaram delas deixaram conosco, no que ajudaram a construir. Elencamos alguns princípios que fundamentam nosso trabalho. Esperamos assim esclarecer qual a nossa visão do assunto – sempre em construção, sempre mutante, sempre em busca de melhoria – e como chegamos a afirmar, com muita tranquilidade e orgulho, que a inclusão na escola infantil é possível… E que a desejamos. Cada vez mais.

 

  • INCLUIR É UM DIREITO INQUESTIONÁVEL

A criança com necessidade especial tem o direito de estar na escola, seja qual for sua característica peculiar, problema de saúde ou histórico. E isso não se discute – é direito dela. Ouvimos dos pais que chegaram com um filho diagnosticado com algum tipo de deficiência relatos doloridos de como foram rejeitados em outros lugares… De como lhes foi negado o direito de matricular seu filho ou filha na escola. Por isso, tomamos muito cuidado em esclarecer essas famílias que a inclusão é um direito.

O primeiro movimento por parte da escola é consciente, e sempre de aceitação – desde a secretaria, até a chegada na sala de aula, com a professora, procuramos abrir os braços para essa criança e sua família.

Não assustamos as famílias, não recomendamos que deixem a matrícula para depois, não damos informações erradas querendo expulsá-las de perto, não nos escondemos. As crianças – todas – são aceitas e participam de todas as atividades, conforme suas possibilidades.

  • INCLUIR É UM TRABALHO DE TODA A EQUIPE

Todos os funcionários da escola são educadores. Cremos nisso e procuramos agir de acordo com essa crença. A secretária que recolhe os documentos para a matrícula, a merendeira que prepara um alimento especialmente para aquela criança que não pode comer gordura ou açúcar, a auxiliar de limpeza que corre para limpar o vômito de um aluno, a diretora, o transportador, a professora, as agentes de apoio… Todos tomam parte responsável desse trabalho. Essas crianças precisam de atenção especial, cuidados especiais e isso envolve toda a equipe, que deve conhecer todos os casos e participar da vida da criança; o aluno ou aluna não é só da professora, mas de todos.

Essa unidade na equipe anula um dos principais fatores que dificultam a inclusão na maioria das escolas: sentindo-se amparada, a professora consegue lidar melhor com a criança e com a realidade da inclusão. Dividindo a responsabilidade, o peso físico, as dificuldades e avanços dos portadores de necessidades especiais, os educadores se envolvem mais no trabalho, a professora consegue refletir mais sobre suas ações de mediação, a família se sente mais tranquila e a criança, com toda certeza, é melhor atendida.

  • DENTRO DA ESCOLA QUE INCLUI NÃO PODE HAVER PEQUENAS EXCLUSÕES

Aos poucos fomos aprendendo que uma criança que não anda pode dançar; uma criança que não fala pode se comunicar, cantar, falar em público; uma criança que não consegue   controlar seus impulsos pode participar de uma festa de aniversário, ou de uma gincana; uma criança que não estabelece vínculos afetivos pode fazer amigos – e é justamente esse o nosso papel. A criança com necessidades especiais, mesmo que não entendamos muito sobre seus problemas, e levando em consideração questões de segurança e saúde, não deve ser negligenciada, e nem excluída de nenhuma atividade – seja dança, leitura de histórias, brincadeiras, refeições, escritas, desenhos, pinturas, passeios. Elas estão sempre junto às outras crianças, e se precisar de ajuda para realizar movimentos, ou para fazer algum tipo de raciocínio, o professor ou outra pessoa, ou mesmo as outras crianças estarão perto, ajudando a desafiá-las, para que possam contornar suas dificuldades, e até mesmo superá-las.

Não concordamos com a visão de colocar uma espécie de “babá” para a criança deficiente, fazendo com que ela seja acompanhada todo o tempo. Pensamos que ela, como todas as outras, pode conviver em grupo, aprendendo a colocar suas necessidades e viver os prazeres e dificuldades desse convívio.

  • NOSSO PLANEJAMENTO DIDÁTICO E AVALIAÇÃO SÃO REPENSADOS PARA ACOLHER AS CRIANÇAS COM NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS

Ao contrário de tantas outras visões de educação, que pregam a homogeneidade como condição principal para a boa educação, acreditamos nas diferenças. Acreditamos na interação entre crianças de diferentes jeitos, idades, classes sociais, possibilidades. Acreditamos no adulto com intenções educativas claras mediando a ação de todas as crianças com objetos de conhecimento. E acreditamos no direito das crianças em ter acesso ao que de melhor a humanidade produziu em termos de cultura humana – ciência, arte, letras, tecnologia, relações, música, corpo, movimento. Acreditamos na brincadeira como grande estratégia de trabalho, como grande prazer. Acreditamos na capacidade das crianças de cuidarem de si mesmas, de cuidarem de outras crianças, de solicitarem a ajuda dos adultos. E tudo isso também deve ser oferecido às crianças com necessidades especiais.

Crianças diferentes são bem vistas, desejadas e participam de maneiras diferentes de nossas propostas… São avaliadas de maneiras diferentes. E não falamos apenas das crianças inclusas, mas de todas elas. Lutamos contra um ideal de aluno em nós, educadores; lutamos, em nós mesmas, contra essa ideia de que todos serão ensinados e aprenderão da mesma maneira. Planejamos situações onde as crianças podem contribuir com o que sabem, aprender com seus pares e mediadores… E avaliamos cada criança em comparação com ela mesma, e não apenas com nossas metas pedagógicas. Reconhecemos seus avanços e passamos a trabalhar as dificuldades que ainda restam.

  • A FAMÍLIA E A COMUNIDADE TAMBÉM SÃO INCLUÍDAS

No começo, é sempre estranho para todos. A criança com deficiência que chega é recebida com muito cuidado. Sua família é ouvida pela coordenadora e pela professora. A escola e os profissionais são todos apresentados. A criança tem uma conversa prévia e individual com a professora, para conhecê-la. E o horário de acolhimento é diferente – sempre respeitando as possibilidades da criança – para que ela possa se acostumar aos poucos com a escola.

A família da criança com necessidade especial é sempre acolhida com muito cuidado. As angústias dos pais são ouvidos à exaustão, porém, sempre deixamos clara a nossa postura – cuidado, sim, mas sem protecionismo. A criança irá participar de todas as atividades, e não a pouparemos de fazer coisas, e nem do convívio saudável com outras crianças.

Acompanhamos os tratamentos médicos, informamos periodicamente a família sobre o desenvolvimento da criança, e sempre que vai haver algum evento especial na escola – festas, danças, teatros, etc – fazemos questão de informá-los de maneira especial, pedindo que a criança participe.

Muitas mães e pais não admitem as necessidades especiais do filho ou filha, e com essas famílias as conversas costumam ser mais longas e difíceis… Mas são feitas mesmo assim. Muitas vezes é na escola que os problemas começam a aparecer, e nesse momento, tão difícil para a família, tentamos nos colocar como parceiros. Se a criança tem alguma necessidade prática especial – de alimentação, de material – ajudamos a providenciar, e organizar.

As outras famílias também são incluídas no debate. Tentamos esclarecer as coisas quando acontece algum ato de discriminação por parte delas, do tipo “não quero que meu filho brinque com esse tipo de criança”. E também ouvimos todas as angústias e dúvidas delas.

Buscamos na comunidade entidades, atividades, diálogos – especialmente através do Conselho de Escola – que possam ajudar nesse caminho, que não fazemos sozinhas.

  • A INCLUSÃO É UMA LUTA SOCIAL

Se dentro da escola fazemos o que podemos, fora dela também temos um papel muito importante. Por isso, estamos sempre lutando pelas crianças portadoras de necessidades especiais.

Lutando para que haja menos alunos por sala, lutando para que a equipe tenha mais pessoas e mais formação, lutando para que tenhamos material, apoio multidisciplinar suficiente, lutando para que todas as crianças sejam atendidas nos serviços médicos que necessitam, lutando para que as pessoas sejam informadas sobre o que é o direito do deficiente e do portador de necessidade especial.

  • BUSCAMOS AJUDA FORA DA ESCOLA, E OFERECEMOS NOSSA AJUDA TAMBÉM

Fazemos de tudo para interagir com os profissionais que cuidam dessa criança fora da escola, e para buscar apoio para ela. Se for preciso alguma adaptação na rotina, nos materiais que usamos ou no jeito de falar com a criança, ensiná-la, interagir com ela, será feito, na medida do possível – e às vezes do impossível também… Não nos negamos a participar de nenhum tratamento ou recomendação médica. E nos colocamos à disposição das equipes para relatar, conversar ou aprender coisas sobre a criança.

  • BUSCAMOS DIVULGAR NOSSAS PRÁTICAS COM INCLUSÃO

Nas reuniões de pais, em encontros com outros educadores, em revistas especializadas e em nosso blog estamos sempre contribuindo, escrevendo, registrando nossa prática, para que ela não seja perdida, e também para que a escola tenha uma cultura educacional que vá além das pessoas que lá estão hoje.

  • TODOS SÃO INCLUÍDOS

Toda vez que a palavra inclusão é mencionada no ambiente escolar, logo imaginamos “incluir” alguém com uma deficiência explícita. Pensamos em alguém com cadeiras de rodas, alguém com um transtorno mental ou psíquico, alguém que não ouve, não fala ou não escuta bem e que precisará de ajuda extra para conviver e aprender em um ambiente com outras pessoas ditas “normais”.

Toda essa fantasia em torno da deficiência torna mais difícil a discussão e o amadurecimento de educadores e famílias. A experiência com alunos ditos deficientes fez acordar para uma realidade – a diferença ( seja ela uma deficiência, uma qualidade, ou simplesmente uma característica ) faz parte do humano. E por isso, todos, em algum momento de nossas vidas, precisamos ser incluídos.

Cada criança que recebemos é de um jeito. Tímidos, agressivos, falantes, inteligentes demais, arredios, desconcentrados, medrosos, de todas as etnias e tipos físicos, crianças com alguma necessidade alimentar ou de saúde sutil, carentes, estressados, agitados, abandonados, tristes ou alegrinhos, com histórias familiares complicadas… Cada um deles merece um olhar especial, momentos de dedicação, uma conversa individual, um carinho diferente. Entre eles, estão as crianças deficientes. Faz parte da profissão de um educador acolher a diferença, e ao mesmo tempo, incentivar o grupo a ser um grupo de verdade.

Todos às vezes ficamos deficientes de algo por algum motivo. Alguém que torce o pé e precisa de uma rampa no local de trabalho, pensa na vida das pessoas que usam cadeiras de roda e muletas todos os dias. Podemos pensar em nossas dificuldades que não conseguimos resolver, nas incapacidades, nas coisas que não conseguimos aprender. Todos às vezes não são aceitos em um grupo ou lugar por não corresponder às expectativas dos outros, pré-julgada.

Convivendo com essas crianças, percebemos que mais do que a consciência racional de uma deficiência, seja ela qual for, é preciso sensibilidade e firmeza para encará-la e transpô-la. Todos precisamos ser incluídos. E aí está o bonito e o difícil da coisa – se é ao nos confrontarmos com outros que nos damos conta das nossas diferenças, é também na empatia do que nos faz iguais que encontramos o conforto e a superação. E somos iguais por sermos humanos. Isso não é diferente pra nenhum de nós.

 

RESULTADOS

Os benefícios da educação inclusiva não são apenas para a criança deficiente ou com alguma necessidade especial atendida, mas para todos. Os educadores começam a repensar seus métodos e intenções – não só para a criança em questão, mas para todos. Outros funcionários começam a se envolver mais no processo educativo, compreendê-lo melhor, e portanto começam a compreender melhor sua função educativa – TODOS na escola são educadores. O grupo de educadores também começa, a partir das necessidades dessa criança, a se ajudar, entrosar mais e trabalhar em conjunto. Funcionários e outras famílias começam a mudar o olhar sobre questões como deficiência, igualdade de direitos, limites, solidariedade – mudanças de paradigmas e de visão.

Mas o principal ganho está para as crianças que convivem com o portador de necessidade especial. Eles são colocados nessa reflexão sobre o relacionamento com outro ser humano diferente, e começam a pensar em coisas como respeito, ritmo, ajuda, diferença. Começam a enxergar as facilidades da criança com necessidade especial e também suas próprias dificuldades, e encarar isso como parte da vida. Eles serão cidadãos melhores na medida em que convivem com e deficiência, com a especificidade de outro ser humano e são envolvidos nesse processo de ajuda. Compreenderão melhor a conviver com essas pessoas, até que chegue um dia em que não precisemos mais falar em inclusão… Porque já será natural essa convivência e aceitação do diferente.

Nuvem de tags