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TODOS SÃO INCLUÍDOS

Por Professora Karina Cabral

Toda vez que a palavra inclusão é mencionada no ambiente escolar, logo imaginamos “incluir” alguém com uma deficiência explícita. Pensamos em alguém com cadeiras de rodas, alguém com um transtorno mental ou psíquico, alguém que não ouve, não fala ou não escuta bem e que precisará de ajuda extra para conviver e aprender em um ambiente com outras pessoas ditas “normais”.

Toda essa fantasia em torno da deficiência torna mais difícil a discussão e o amadurecimento de educadores e famílias. Minha experiência com meus alunos ditos deficientes me fez acordar para uma realidade – a diferença ( seja ela uma deficiência, uma qualidade, ou simplesmente uma característica ) faz parte do humano. E por isso, todos, em algum momento de nossas vidas, precisamos ser incluídos.

Fiquei pensando nas centenas de crianças que cruzaram comigo nesta vida. Cada um era de um jeito, cada um me via de um jeito, para cada um dei coisas diferentes de mim, de cada um recebi coisas diferentes. Tímidos, agressivos, falantes, inteligentes demais, arredios, desconcentrados, lunáticos, medrosos, gordinhos, magérrimos, crianças com alguma necessidade alimentar ou de saúde sutil, carentes, mimados, agitados, terríveis, abandonados, chatos, malvados, tristinhos ou alegrinhos, famílias complicadas… Cada um deles mereceu de mim um olhar especial, momentos de dedicação, uma conversa individual, um carinho diferente. Entre eles, estão as crianças deficientes. Faz parte da profissão de um educador acolher a diferença, e ao mesmo tempo, incentivar o grupo a ser um grupo de verdade.

Fiquei pensando nas vezes em que eu fiquei deficiente de algo por algum motivo. E nas deficiências que tenho até hoje. Quando torci o pé e precisei de uma rampa no meu local de trabalho, pensei na vida das pessoas que usam cadeiras de roda e muletas todos os dias. Não faz muito tempo tive uma conjuntivite fortíssima, e pensei como é horrível letras tão pequenas pra indicar as coisas em quase todos os lugares, quando a gente mal consegue ver. Penso nas minhas dificuldades que não consigo resolver, nas minhas incapacidades, nas coisas que não consegui aprender. Penso nas vezes em que não fui aceita em um grupo ou lugar por não corresponder às expectativas dos outros, pré-julgada. Tudo isso doeu, mas passou. Imagino como deve ser reviver isso todos os dias, todas as horas.

Convivendo com essas crianças, percebo que mais do que a consciência racional de uma deficiência, seja ela qual for, é preciso sensibilidade e firmeza para encará-la e transpô-la.

A verdade é que todos precisamos ser incluídos. E aí está o bonito e o difícil da coisa – se é ao nos confrontarmos com outros que nos damos conta das nossas diferenças, é também na empatia do que nos faz iguais que encontramos o conforto e a superação. E somos iguais por sermos humanos. Isso não é diferente pra nenhum de nós.

A INCLUSÃO É UM ABRAÇO

Por Professora Karina Cabral

A INCLUSÃO É UM ABRAÇO *

A inclusão é um abraço.

Como todo abraço, envolve pelo menos duas pessoas. Como todo abraço, envolve disposição de corpo, mente e alma. Como todo abraço, causa medo e prazer. Como todo abraço, traz conforto e aprendizado. Como todo abraço, é necessária para que continuemos crescendo como seres humanos. Como todo abraço, ela é desejável e importante. Como todo abraço, a inclusão exige de nós um olhar para o outro, a partir de nós mesmos.

Desde que comecei ouvir mais sobre a proposta ousada de trazer para a sala de aula de “crianças normais” os alunos que tinham algum tipo de deficiência – física, intelectual, psicológica – eu sabia que uma hora chegaria a minha vez.

Acompanhei, de perto e de longe, amigas que receberam em suas salas crianças e jovens com problemas auditivos, visuais, motores, cognitivos, afetivos. Vi o quanto todas elas sofreram para conseguir compreender a deficiência explícita de seus alunos, e o quanto tentaram, com tudo que podiam, fazer o melhor por essas crianças.

Acompanhei o descaso das instituições – públicas e privadas – com essa situação, deixando para as professoras e suas famílias a árdua tarefa de “dar um jeito” de praticar a inclusão a todo custo.

Acompanhei também famílias inseguras, educadores despreparados, crianças assustadas, infraestrutura precária, muito choro, muita revolta, muito estranhamento. E por tudo isso, eu tinha medo de quando chegasse minha vez de receber uma criança assim.

Este ano aconteceu. G.* apareceu na lista da minha sala com um asterisco, indicando que eu estaria finalmente colocada inteira nessa roda.

Na sala das crianças de 3 anos, o G. chegou risonho. Antes dele, chegaram seus pais, ansiosos e com medo, mas firmes em seu propósito de oferecer a seu filho o melhor que pudessem – inclusive a experiência de ir para a escola. Antes deles, chegou minha coordenadora, parceirona de valor, com o diagnóstico em mãos – transtorno de desenvolvimento global ( termo que diz tudo e não diz nada ). G. não pode andar sozinho, e todas as complicações decorrentes da dependência de não andar.

O primeiro gesto de G. pra mim foi estender os braços para que eu o abraçasse, ao retirá-lo do colo de sua mãe. Uma proposta de abraço acompanhada de um sorriso imenso.

Ali eu perdi o medo, e o abracei. Não abracei só o seu corpo, mas também a idéia de estarmos juntos durante esse período, aprendendo tudo que pudéssemos aprender um com o outro.

E então eu soube que, na verdade, não estava abraçando um diferente, e sim um igual a mim.

Professora Karina Cabral

* Texto originalmente publicado na Revista Avisa-lá, número 43, em 2010, e no blog “Abraçando“, que passa a fazer parte do “Gira, Cirandinha!” a partir de agora.

** O nome de G. foi abreviado para proteger sua identidade.

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