EMEI Jardim Monte Belo – um lugar pra ser feliz!

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CARTA ABERTA AOS CIDADÃOS BRASILEIROS

Há muitos anos temos escola pública em nosso país, um espaço onde todos podem estudar sem pagar, independente de sua religião, condição de saúde, raça, classe social. Uma escola com acesso a TODOS.

Então, por que ainda temos tantas crianças sem vaga nas escolas de nosso bairro? Por que tantos jovens desistem da escola antes de concluir seus estudos? Por que tantos adolescentes saem do Ensino Fundamental sabendo apenas assinar seu nome? Por que as vagas de alfabetização de adultos estão cada vez mais escassas, se ainda temos tantas pessoas adultas sem saber ler nem escrever? Por que ainda temos tantas crianças – deficientes, miseráveis, indigentes, moradoras de rua – fora da escola?

A escola pública surgiu para que todos fossem iguais em direitos, e tivessem um ensino de qualidade; um espaço de convivência, de paz, de aprender muitas coisas sobre o mundo e sobre a cultura. Um espaço onde a vida acontece e onde se prepara para a vida.

Então por que tantas famílias, quando possível, preferem colocar seus filhos em escolas particulares? Por que os educadores têm de lidar com a violência e o tráfico de drogas dentro da escola? Por que as professoras têm salas com 35 crianças pequenas, 40 crianças maiores para ensinar e cuidar sozinhas?

A escola pública conta com o apoio do governo oficial, que por meio de impostos recolhidos dos cidadãos, a constrói, sustenta e modifica para melhor, com transparência e compromisso.

Então, por que estamos em abril e não temos ainda material escolar e uniforme para as crianças? Por que nem sempre a merenda é suficiente? Por que nem todos os cidadãos sabem o que acontece com as verbas destinadas à educação? Por que temos escolas sem espaços adequados, sem salas de apoio, sem material suficiente, sem acessibilidade aos deficientes? Por que se gasta milhões com terceirizações de serviços e não se abrem concursos públicos para provimento de cargos de apoio?

Na escola pública trabalham educadores – servidores públicos, concursados, a quem o governo paga salários e benefícios, e oferece formação para que sejam profissionais cada vez melhores.

Então por que a cidade mais rica do país paga salários tão defasados a seus professores graduados e formados? Por que alguns profissionais do quadro ganham menos que um salário mínimo? Por que os educadores quase não têm cursos de formação e atualização? Por que não temos mais jovens que sonham  ser professores? Por que professores são vistos como coitados, desvalorizados pela sociedade? Por que tantos educadores estão em licença médica, doentes de depressão e estresse? Por que professores têm que trabalhar em duas e até três escolas, muitas vezes fazendo turnos de 16 horas diárias, para conseguir sustentar suas famílias?

A escola pública está longe de ser uma escola para o POVO. E é o povo quem precisa ajudá-la a se tornar aquilo que precisa ser! E o momento propício é este, quando estamos prestes a entrar em um processo eleitoral e temos o direito e dever de cobrar dos que nos governam resposta para essas perguntas!

Nós, educadores ( professoras, agentes escolares, auxiliares, gestores ), estamos parando em greve e protesto a tudo isso nos próximos dias 02, 03 e 04 de abril, cobrando do governo que abrace a escola pública e se esforce para resolver todas essas questões e muitas outras. A comunidade também precisa dar esse abraço na escola pública e exigir que o governo não a abandone mais!

 

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EMEI JARDIM MONTE BELO – 10 ANOS TRANSFORMANDO E HUMANIZANDO O ESPAÇO FÍSICO

Por Regina Celia Soares Bortoto

Enfim, a palavra emotiva da diretora Regina, que explica a delicada e forte relação entre escola e comunidade por ocasião dos 10 anos da nossa EMEI


O título acima foi escrito em 2002 num dos livros pedagógicos desta Escola. Nada mais atual que esse título, pois esta Escola, que nasceu desejada como a um filho querido, continua em busca da transformação e humanização do espaço físico.

Essa característica original é preservada por seus funcionários através do sonho permanente de construir uma Escola de qualidade para os filhos dos trabalhadores que moram num dos montes mais belos desta região por sua geografia, por sua natureza e por sua população organizada. Quem aqui chegou primeiro certamente ficou assustado com os desafios com os quais se depararam. Foram corajosos. Mas era isso, ou seja, lutar sem trégua… Ou se contentar com o abandono do poder público. Sem luz, sem água tratada e encanada, sem asfalto, sem rede de esgoto, sem coleta de lixo, sem transporte, sem equipamentos públicos… Enfim sem quase nada—e com muito sofrimento.

Hoje, só podemos olhar com muito orgulho ao nosso redor, ver tudo que melhorou, e dar parabéns a todos que fizeram parte dessa História. Passados 10 anos, o Jardim Monte Belo, bem como a EMEI que carrega o mesmo nome, mudaram muito, causando sensações, sentimentos e opiniões. Moradores ergueram suas casas com as próprias mãos para abrigar suas famílias. Na mesma medida, professores e demais funcionários que por aqui passaram ou que por aqui ficaram edificaram um lugar para abrigar conhecimento.

Assim como os moradores, esses funcionários amassaram muito barro, passaram muito calor, muito frio, na escola de latinha, na escola de madeira, ficaram sem água, ou sofreram com a enchente, correram atrás de prefeito, de secretário da Educação, de subprefeito, de padre, de líderes comunitários… Não pouparam energia física e mental por acreditar e principalmente por amar o que fazem, lembrando realmente o Educador Paulo Freire que dizia “que não se faz Educação sem amor”.

Sinto-me feliz e muito à vontade para afirmar pela gestão – Regina, Valéria e Meire— que trabalhar nesta EMEI é dar a cada dia de trabalho um significado novo, pois contamos com um grupo de professoras e funcionários dispostos a pensar a Educação Infantil pra valer. São Educadores que conseguem transitar pela teoria e prática sem perder o rumo e a paixão. Cuidam com carinho, mas com a autoridade e responsabilidade de um adulto que Educa, sabendo discernir a hora de elogiar, advertir ou impor limites sem temer as conseqüências, porque refletem constantemente o seu fazer pedagógico.

Pessoas dedicam parte de suas vidas dentro deste prédio; e cada criança que entra pelo portão, trazida pelas mãos das monitoras do transporte escolar ou pelas mãos de sua família—pais, mães, irmãos, avós, avós, primos, primas, cuidadoras – é carinhosamente acolhida e tratada como seus filhos e filhas. Educadores atentos ao aprendizado escolar de crianças que não são vistas apenas como um número de matrícula, mas como seres completos aqui e agora, com sonhos, opiniões, direitos e ávidos por experimentar a vida.

Hoje, relembro e entendo alguns cumprimentos que recebi quando em 2010 para cá me removi. Foram manifestações de elogios—você vai adorar a Escola, você teve muita sorte, você vai trabalhar com uma Coordenadora Pedagógica que entende muito de Educação Infantil, você vai ver que grupo maravilhoso de professoras.. Expressando e reconhecendo o quanto esta EMEI é especial, composta por funcionários comprometidos com uma Educação de qualidade, que desenvolvem projetos voltados para a formação de sujeitos autônomos e capazes de viver e conviver com o outro com respeito e solidariedade.

Conhecer de perto e respeitar essa comunidade é o que possibilita  construir uma Escola onde as crianças sintam o mesmo prazer em ficar seja na classe, no parque, na quadra, na sala multiuso, no refeitório, ou em qualquer dependência, livres e felizes como se estivesse em suas próprias casas.

Sabemos que temos muito a fazer pelo nosso espaço ainda. Tratamos disso com muita seriedade. Ainda bem que não estamos sós, podemos contar com um Conselho de Escola e uma Associação de Pais e Mestres muito atuante e forte. Acreditamos que juntos e organizados somos co-autores de uma obra em constante movimento de vir a ser.

Por fim, só cabe dar parabéns a todos Educadores desta Escola que acreditam nos tempos de hoje que a Educação é uma ferramenta que contribui na formação de seres humanos capazes de compreender, intervir e transformar a realidade em que vivem.

COMO SE CONTA UMA HISTÓRIA DE 10 ANOS?

Podemos contar 10 anos em números. 2000 dias letivos. 100 reuniões de conselho de escola, 50 de A.P.M.. Mais de 5000 matrículas e rematrículas. Mais de 150 funcionários. Mais de 15 milhões de refeições.

Talvez fosse melhor contar 10 anos como um conto de fadas. Era uma vez… Uma comunidade que desejou uma escola, lutou por ela, esperou por ela… E ela aconteceu! Foi assim…

Podemos contar 10 anos de problemas… Escola de lata e de madeira, falta dinheiro, falta funcionário. Aquela reunião que não apareceu ninguém, aquela regra que ninguém respeitou, aquele problema que ninguém percebeu, aquele cano que ninguém consertou, aquilo que todo mundo estava esperando acontecer, e nada. Problemas de todo dia, problemas ocasionais, problemas raros, problemas fáceis e outros impossíveis de resolver. Atrasou, brigou, discutiu, rompeu, faltou, quebrou, magoou, não entendeu, decepcionou, não deu certo, não veio, desistiu… Foi embora.

Quem sabe… 10 anos em conquistas. Um prêmio, um reconhecimento, a reunião que deu certo, um artigo na revista, a criança que aprendeu, a professora que conseguiu, a família que ajudou, aquilo que saiu melhor do que a gente supunha, aquilo que agradou a todo mundo, aquele monte de sorrisos, aquela cantoria toda, aquela festa grandiosa em que todo mundo veio, aquele dia de sol que parece que nunca mais acabou.

E como seriam 10 anos de abraços? Seja bem vindo! Muito prazer. Parabéns pelo seu aniversário, seu casamento, o nascimento do seu filho, pelo sucesso do seu trabalho. Senta aqui no meu colinho, sua mãe já vai voltar. Gosto tanto de você… Ainda bem que trabalhamos juntas. Nossa equipe arrasou! Sinto muito pela sua perda. Calma, sua dor já vai passar. Conte comigo. Não solta da minha mão, senão você se perde. Adeus… Foi muito bom te conhecer.

Podemos também contar 10 anos de nomes. Marias, Joãos, Déboras, Karinas, Reginas, Jeniffers, Josés, Pedros, Matheus, Danis, Lúcias, Elis,Anas, Cláudias, Paulas, Vicentes, Antônias, Valérias, Nices, Vergínias, Helenas, Meires, Betes, Fátimas… Jurandyr.

E 10 anos de reuniões e festas? Encontros pedagógicos, chás-de-panela e bebê, conselhos de escola, paradas, formações, festa junina, aniversários, nhoque da sorte, festa do sorvete, do macarrão, da leitura, natal, semana da criança, formatura, jogral, despedidas, apresentações de cinema, de teatro, show de mágica, lanche comunitário, excursões para museus, para  o circo, para o sítio, para o concerto, para o parque, para a biblioteca.

10 anos de papéis. Sim, de papéis!  Regimentos, matrículas, desenhos, bilhetes, pinturas, ocorrências, diários de classe, registros, portifólios, livros, cadernos, cartazes, informativos, boletins, relatórios, comunicados, pedidos, recibos, listas, cartões, telegramas… Ufa!

Existem muitas maneiras de se contar uma história de 10 anos. Mas o melhor de tudo é ter 10 anos de história para contar. Uma história de partilha… Partilha de ideais, de trabalho, de luta, de sonhos… De alegrias e tristezas. Uma história que temos muita felicidade em contar e fazer parte. Uma história viva… Uma história nossa!

Apareça para comemorar!

QUANDO A ESCOLA SEMPRE É UMA FESTA…

Por Professora Karina Cabral

Como educadoras e educadores, temos orgulho do trabalho que realizamos na EMEI Jardim Monte Belo.

E ao comemorar 10 anos de escola, estamos felizes, muito felizes.

E estamos felizes não só pelos sucessos pedagógicos, pelos trabalhos que dão certo, pelas experiências bem sucedidas, que – ainda bem – são muitas.

Estamos felizes não só pelos nossos erros, para os quais olhamos com reflexão e bondade, pois muito nos ensinaram.

Estamos felizes não só por olhar para trás e ver de quanto suor, sorrisos e lágrimas se faz uma comunidade escolar.

Estamos felizes não só por ver quantas dificuldades foram superadas.

Estamos felizes não só pelas conquistas da comunidade que, através do nosso Conselho de Escola bem estruturado e atuante,  e da nossa política de aproximação das famílias, conseguimos apoiar e compartilhar.

Estamos felizes não só pela gestão democrática e transparente de pessoas e recursos, que aproxima todos os membros da comunidade escolar e melhora, com muita luta, o nosso espaço físico e nossos recursos.

Estamos felizes não só pelo excelente trabalho realizado em uma escola pública, laica, gratuita e de qualidade, que tem por princípio respeitar todos os seres humanos, criando espaços para que se expressem livremente como cidadãos.

Nossa principal felicidade… São as crianças.

Sim, as crianças! Diante da proposta de fazer um concurso para escolher um desenho que representasse a escola que elas tinham, e a escola que queriam, por ocasião dos 10 anos da escola… Elas mostraram como são felizes dentro da EMEI Jardim Monte Belo. Foram muitos desenhos, até que todos conseguissem votar em um que simbolizasse esses 10 anos de festa.

E nossas crianças mostraram em suas pinturas que nossa escola sempre é uma festa para elas…

Uma escola colorida, alegre e cheia de detalhes…


Uma escola cheia de brinquedos interessantes para brincar…

Uma escola onde adultos e crianças estão sempre juntos, apoiando um ao outro…

Uma escola que é proteção para as crianças com necessidades especiais…

Uma escola inserida em um contexto social, que não está distante do que acontece no bairro…

Uma escola onde se brinca de montão…

Uma escola com um parque sempre iluminado por um sol sorridente…

Uma escola cercada de corações, carinhos e flores, com alguém de braços abertos, bem na porta…

Uma escola com adultos grandes e protetores…

Uma escola que é abrigo…

Uma escola que é espaço para crianças diferentes entre si…

Uma escola cheia de espaços diferentes…

Uma escola debaixo de um arco-íris…

Uma escola de paredes simpáticas, e de festas diversas…

Uma escola que é de professores e de alunos…

Uma escola que é da comunidade…

Uma escola que merece festa, bolo e brigadeiro…

Uma escola cheia de sorrisos…

Uma escola que é sempre uma festa!

PASSEIO PELO BAIRRO

Na maior parte dos Projetos Pedagógicos das escolas, públicas ou não, em algum ponto estará escrito que é preciso “conhecer a comunidade”, “trazer os pais para a escola”, “estimular o contato entre pais e educadores”, “receber e acolher as famílias”, “praticar a gestão participativa e democrática”. Termos bonitos e prontos que só quem se arrisca a colocá-los em ações práticas sabe como é delicado e difícil conseguir. Aproximar-se da comunidade é, antes de tudo, rever nossas concepções de mundo, de pessoa, de educação.

Na manhã chuvosa do último sábado, dia 12 de março, o grupo de funcionários saiu da escola para, mais uma vez, tentar dar um passo em direção à relação saudável entre educadores e comunidade que tanto buscamos. Fomos fazer um reconhecimento da geografia, da história e da estrutura social do bairro em que trabalhamos, conhecido como “Morro Doce“. É um bairro ligado ao distrito de Anhanguera, administrado pela subprefeitura de Perus. Fica na saída da Rodovia Anhanguera, no Oeste da cidade de São Paulo. O bairro conta com várias pequenas vilas – a maior parte delas iniciada em terrenos invadidos, agora já regularizados.

Ladeiras super íngremes, ruas estreitas, áreas em construção e outras de natureza intocada - um bairro em crescimento desordenado e explosão demográfica

Presas em um ideal de criança, um ideal de família e um ideal de bairro, e fechadas dentro da escola, muitas vezes não imaginamos como é a vida real das nossas crianças – como são suas casas, como são as ruas que andam, onde brincam, onde compram o pão, quem são seus vizinhos, o que vêem e ouvem, com quem convivem, onde vão, a que perigos estão expostas. Se não furarmos a bolha que separa a escola do bairro e da comunidade em que está inserida, corremos o risco de educar e construir relações segundo nossos preconceitos e estereótipos. Pensaremos que são mais ou menos carentes, mais ou menos interessados, mais ou menos vivenciados, mais ou menos felizes do que realmente são. Será uma relação falsa e distante.

Casas antigas, casas novas e lindas, construções inacabadas e barracos convivem na mesma paisagem

Depois da visita, que deixou a muitas de nós surpresas, sentamos para conversar e trocar nossas impressões. Alguns pontos levantados pelas educadoras:

* A geografia física do bairro realmente é rica e peculiar: vimos brejos, plantações de eucalipto, matas fechadas e intocadas, baixadas alagadas, picos e vales.

* O bairro é relativamente novo, está em crescimento e tem muitos contrastes. Vimos casas bem grandes e bem acabadas, casas antigas e que parecem sítios, barracos, ruas sem asfalto, sem coleta de lixo e onde o correio não chega.

* Recentemente algumas ruas foram “rebatizadas” oficialmente pela prefeitura, o que mudou os nomes que a própria comunidade  tinha escolhido.

* Embora seja um bairro numeroso e em explosão demográfica, temos pouquíssimas escolas, apenas duas unidades de saúde e quase nenhuuma área de cultura e diversão. Pessoas, às vezes, andam até dois quilômetros para conseguir chegar a um ponto de ônibus, e em muitas ladeiras, carros e caminhões não podem subir. A região de Perus, que abarca o bairro do Morro Doce e conta com 160 000 habitantes, não tem um leito sequer de hospital e apenas um pronto-socorro.

Vilas e bairros imensos, cheios de casas, pessoas... E poucas escolas, postos de saúde e possibilidades de diversão

* As educadoras que estão a mais tempo no bairro, reconhecem que ele melhorou muito em condições básicas e saneamento – asfalto, luz elétrica, coleta de lixo e canalização de córregos era algo distante da população 10 anos atrás, e por luta constante dos moradores, foi sendo conseguido, embora ainda não tenha chegado a todos.

* O comércio local conta com pequenos estabelecimentos, poucos bares, e algumas lojas específicas. Vimos também muitas igrejas e alguns centros sociais de apoio à população.

* As casas são apertadas no espaço estreito das ruas, e a maior parte delas não tem quintal. As ruas, por serem tão íngremes, não podem ser usadas para brincar, o que nos fez pensar que as crianças vêem na escola e seu entorno um espaço amplo e divertido que não parecem  ter em casa.

Educadoras saem da escola para conhecer de perto o bairro em que trabalham - muitas surpresas, construções e desconstruções nesse trajeto

* Por ser um lugar carente de infra-estrutura, as pessoas vão à escola acreditando que é um lugar onde podem ser ouvidas. Contam conosco, respeitam, dão valor, ainda que muitas vezes não façam isso do jeito que esperamos. Isso nos traz alegria e nos lembra da nossa responsabilidade junto a essas pessoas.

* O TEG ( transporte escolar gratuito ) é muito importante para as crianças, pois sem ele, para algumas, seria muito sofrido e até mesmo inviável andar tanto para chegar à escola. Os adolescentes do bairro têm que estudar na Lapa, e as crianças maiores muitas vezes andam mais de uma hora para chegar à escola. Nossos alunos, embora merecessem ter mais escolas perto de suas casas, ainda são “privilegiados” por serem pequenininhos.

O bairro começou e cresceu desordenadamente grudado nos morros - história que já ouvimos tantas vezes, e que esperamos que não acabe em tragédia como tantas outras

* A área é de mananciais e nascentes – tínhamos uma delas dentro do tanque de areia do parque. O solo é instável. Quando um buraco se abre na rua, logo vira uma cratera. E isso parece bem perigoso. Ficamos pensando o quanto a população corre o risco de sofrer com desabamentos e coisas do tipo.

* Embora seja um bairro tranquilo, já começamos a ouvir relatos de moradores dizendo ter medo do aumento da criminalidade e do uso de drogas. Com poucas opções de estudo, apoio social, saúde, trabalho e diversão, fica mais fácil que a juventude se envolva com entorpecentes. É uma doença social que também nos afeta, por mais que não queiramos enxergar.

* Falamos também sobre a arrogância de prestadores de serviços públicos que, apoiados por preconceitos econômicos e sociais, destratam a população como se estivessem prestando um favor a ela, quando na verdade são funcionários pagos com o dinheiro de todos para fazer um serviço de qualidade, seja na área que for.

Quantas ladeiras, ruas sem calçada, barreiras e problemas as crianças do bairro enfrentam até chegar à escola todos os dias...

* Ainda vemos no bairro coisas que parecem distantes do imaginário que temos do que seria um bairro urbanizado da cidade de São Paulo – pessoas sentadas na calçada conversando, churrasco na rua, casas sem portão, charrete, galinhas e vacas sendo criadas no quintal.

* Embora, ao longo desses dez anos, tenhamos ouvido muitas histórias tristes, o bairro do Morro Doce tem uma característica alegre e batalhadora. As pessoas têm orgulho de contar a história do bairro atreladas à história de suas próprias vidas. E isso faz com que adotemos o bairro e a comunidade como nossos também.

Vista aérea do bairro e no vale, a escola - um bairro que começou, cresceu e tem buscado a dignidade através da luta de seus moradores

Claro, as impressões, informações visuais e coisas que sentimos são impossíveis de colocarmos totalmente em palavras. Mas a experiência, com certeza, aumentou nossa sensibilidade e conhecimento para lidar com as pessoas que estão na escola todos os dias. Somos todos humanos em relação constante. E essa relação terá mais veracidade e qualidade quanto mais nos dispusermos a conhecer melhor uns os outros… Quanto mais nos abrirmos para essa relação. Valeu!

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