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DIAS LEGAIS PARA COMEMORAR PARTE II – UMA CONVERSA COM AS FAMÍLIAS

Texto: Professora Karina Cabral

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Tempos atrás, postamos um texto em nosso blog que virou campeão de acessos e provocou muitas outras conversas com educadores e educadoras, via e-mail, encontros, discussões, fóruns – você pode ler o texto AQUI. Ele trata sobre a nossa postura em relação à comemoração de datas que as escolas infantis tradicionalmente comemoram. Esclarecemos, em nossa escrita, parte de anos de nossas discussões internas. Entendemos nosso papel como educadoras e educadores de escola pública. E a escola pública é laica ( não professa religião nenhuma ), inclusiva, consciente dos fatos de nossa História ( sempre contada pelos  dominantes, nunca pelos dominados ) e não pode incentivar o consumismo. Embora não fosse, na época, uma postura comum, era uma postura de acordo com as leis do nosso país ( Constituição Federal – 1988, e Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB – 9394/96 ) e também de acordo com os ideais de uma educação democrática, para todos e todas, sem deixar ninguém de fora.

O texto rendeu muitas discussões, mas percebemos que faltava uma conversa que era a mais importante – com as famílias das crianças de nossa escola. Nas reuniões de Conselho de Escola, esse tema surgiu várias vezes. Todos os anos, metade dos alunos da escola vão para o Ensino Fundamental, e recebemos novas crianças. Essas novas famílias precisam entender nosso ponto de vista sobre esse assunto, tirar as dúvidas e dar sua opinião. E toda vez que essa troca acontece, também nos faz mudar de perspectiva, confirmando ou mudando nossas posições.

Aqui está o registro escrito da conversa que tivemos na última reunião de famílias e educadoras, este ano.

POR QUE COMEMORÁVAMOS DATAS NA ESCOLA?

Tempos atrás, aqui na EMEI Jardim Monte Belo, era comum comemorarmos essas datas na escola. É uma prática antiga, e que fazíamos sem pensar. Páscoa, dia das mães, festa junina, dia das crianças, dia do índio, dia disso, dia daquilo… Muitas escolas baseiam todo o seu planejamento educativo nessas datas. Mas aos poucos, começamos a nos perguntar SE deveríamos comemorar essas datas, e POR QUE deveríamos comemorá-las. E as respostas vieram… E atrás delas outras perguntas:

“Precisamos de temas para atividades pedagógicas.”

Mas…

Se estamos construindo um projeto pedagógico sério, estudando as melhores formas de educar as crianças, precisamos mesmo “disfarçar” as atividades em temas supostamente agradáveis?

“Todo mundo faz essas comemorações, é um costume.”

Mas…

De onde vem esse costume? Que ideologias estão por trás dele? Compactuamos com essa ideologia? A escola é um lugar de transformação ou reprodução do meio social?

“Fazemos isso para homenagear um determinado grupo de pessoas.”

Mas…

Será que essas pessoas estão sendo homenageadas da melhor forma? Comemorar o “dia do índio” é mesmo dar voz a um povo que é massacrado todos os dias? Comemorar o “dia da mulher” é falar sobre a luta das mulheres? Comemorar o dia das mães da maneira tradicional é respeitar as novas formatações de família que temos em nossa sociedade, e entre nossas crianças? Por que valorizar tanto o dia das mães, e negligenciar o dia dos pais?

“É um jeito de divulgar nosso trabalho para as famílias.”

Mas…

Será que as famílias não são capazes de compreender a fundo nossa proposta pedagógica, se explicarmos a elas? Será que um enfeite ou presentinho falará mais do que um debate, uma reflexão em grupo, uma conversa aberta, uma formação para os pais e mães?

“É uma desculpa para fazermos festas e brincadeiras para as crianças, elas gostam e se divertem.”

Mas…

A escola não deveria ser um lugar divertido e prazeroso para as crianças sempre? Não deveria ser um lugar  de brincadeiras, de ludicidade, de infância todos os dias do ano?

“As datas aproximam as famílias da escola.”

Mas…

Será que não podemos chamar as famílias em outras oportunidades, para vivenciar o trabalho da escola como ele é no cotidiano, e não apenas em uma ocasião “produzida” para isso?

“As datas ensinam valores religiosos, afetivos e morais importantes para as crianças.”

Mas…

Que valores são esses? Temos o direito de pisar em determinados terrenos sem permissão e tirar da família certas escolhas sobre a educação das crianças? Como fazemos com as crianças que são excluídas dessas comemorações por motivos afetivos, econômicos, sociais, religiosos? Manteremos essas pessoas à margem do padrão?

COMO FOI O NOSSO PROCESSO DE DISCUSSÃO?

Diante de tantas perguntas, pensamos, como grupo, que algo estava muito errado, e precisava mudar.

Partimos para um estudo detalhado sobre o tema de cada data, e também sobre as datas em si. Entramos em contato com os movimentos organizados da sociedade sobre as lutas das mulheres, dos índios, dos negros, e aprendemos muitas coisas.

Paralelamente à nossa discussão, foram acontecendo mudanças em nosso país também. Leis educacionais foram sendo promulgadas, garantindo direitos a grupos que antes eram desprezados pela sociedade ( Lei 10639/2003, e Lei 11645/2008). Começamos a entender que a escola só será para todos quando todos e todas forem estiverem dentro dela, podendo ser quem são, e tendo a origem, cultura e opções de vida respeitadas.

Começamos a fazer pequenas mudanças. Retiramos o viés de consumo e individualidade de datas como a páscoa. Paramos de comemorar datas que não tinham sentido para nós. Fomos eliminando algumas comemorações que não diziam respeito às crianças, e, ao mesmo tempo, nosso Projeto Político Pedagógico foi ganhando corpo, e mudando a nossa concepção de infância e de educação para a infância.

Nenhuma ação fica sem reação, e, claro, as famílias estranharam as mudanças. Abrimos um diálogo difícil, mas necessário com elas. Tocar nesse assunto é romper paradigmas; isso causa medo, insegurança; e muitas coisas precisam ser discutidas para que cheguemos a um consenso.

Amadurecendo e estudando cada vez mais… Chegamos, enfim, a um rompimento com essa prática. Abolimos as comemorações de páscoa, dia das mães, natal… E transformamos o caráter da festa junina e do dia das crianças. Foi um momento de postura radical do grupo, que já não via sentido nisso tudo.

Mas percebemos que esse também não era o caminho. Não há problema em comemorar… O problema é o que se comemora, e como se faz isso. E foi então que partimos para uma reelaboração do calendário de datas comemorativas da nossa EMEI.

FALAR DE DATAS COMEMORATIVAS NA ESCOLA É FALAR DE VALORES…

Percebemos que a ideia de valor é sempre individual ou social, nunca absoluta. Cada sociedade elege, em seu tempo, lugar e cultura, o que vai transformar em “valor” ou não. E se é assim, começamos a pensar em quais valores identificávamos em nossa sociedade. E percebemos que eles não eram, de fato, nossos, e não eram os valores que queríamos acordar com as crianças e famílias que passavam por aqui.

  • Nossa sociedade é baseada em individualismo… Cada um por si, e quem pode mais se dá melhor.

Mas nós pensamos em coletividade, em convivência mútua!

  • Nossa sociedade é baseada em meritocracia… Você ganha mais coisas tanto mais consegue produzir ou fazer, ainda que as condições não sejam as mesmas para todos no início.

Porém, acreditamos em solidariedade, justiça e igualdade!

  • Nossa sociedade é baseada em consumismo… Quanto mais você tem, mais você é valorizado.

Mas nós queremos valorizar o que as pessoas são, e não o que elas têm!

  • Nossa sociedade é baseada em esperteza… Não importa o que você faça, apenas tenha sucesso.

Mas nós buscamos a ética nos relacionamentos, onde ninguém passa ninguém para  trás para se dar bem, ainda que isso lhe custe algumas desvantagens!

  • Nossa sociedade é baseada em violência, exclusão e intolerância… Resolvemos os problemas da convivência com agressões, com discursos duros e egoísmo.

Mas nós queremos que nossas crianças respeitem todas as pessoas como são, aceitem a diversidade, incluam a todos e todas e sejam pacíficas!

  • Nossa sociedade é baseada em alienação… Fazemos as coisas no “automático”, sem pensar, refletir ou transformar; colocamos a nossa mente em uma tela de TV, celular ou computador e não observamos o que estamos fazendo com o mundo, com a natureza, com as outras pessoas, e conosco.

Mas nós acreditamos na consciência, responsabilidade, na capacidade de pensar e mudar as coisas para melhor!

  • Nossa sociedade é baseada em autoritarismo… Obedecemos ordens que nem sabemos de onde vêm, e o poder individual é sempre valorizado.

Mas nós acreditamos em diálogo, democracia e em construção de poder coletivo, dividido!

O trabalho com datas comemorativas, muitas vezes, reforçava valores da sociedade que temos, e não da que queremos ter.

COLETIVO, ESCOLA PÚBLICA E DEMOCRACIA

A palavra “coletivo” vem do latim “collectivus”, que significa “aquilo que agrupa, que ajunta” (fonte: site Origem da Palavra). Portanto, para fazer um coletivo, não podemos buscar o que entre nós é desacordo, é separado, é motivo de afastamento; buscamos aquilo que nos une.

E sendo assim, não vamos discriminar ninguém – de nenhum tipo de configuração familiar, religião, posição política. Não vamos sacrificar as posições de nenhuma família para fazer uma comemoração que é familiar, ou de um determinado grupo religioso; não vamos fazer o que é de todos e todas algo que é apenas de alguns e algumas.

A escola pública não é o quintal da casa de ninguém. Ela não é prolongamento de nenhuma família. Ela é um espaço que é, ao mesmo tempo, de todos e todas, mas não só desse ou daquela. É uma ideia difícil de entender, mas fácil de viver se conseguirmos nos respeitar e aceitar que  a nossa origem, as nossas posições, o nosso modo de ser, viver, pensar a vida não é o único… É só mais um, em um coletivo.

Há muita confusão acerca do conceito de democracia. Democracia não é apenas “seguir a vontade da maioria” massacrando as minorias… Mas é buscar soluções em conjunto para que todas as pessoas sejam, de alguma forma, acolhidas e respeitadas. Especialmente em um espaço público.

Por isso, nossa postura em relação às datas comemorativas tradicionais é firme, mas não é fechada. Ela tem princípios, mas pode se configurar de muitas maneiras alternativas. Mantendo a legalidade, a consciência, o diálogo, a inclusão, a qualificação pedagógica… Tentamos, então, dar um passo em direção ao futuro… E estamos conseguindo.

E ENTÃO… NÃO COMEMORAMOS MAIS NADA?

Mas nós gostamos de festa! Gostamos de celebrar! Há muitas datas interessantes que podemos recuperar, criar. Há muitas situações interessantes para viver com as crianças na escola, e nós agora estamos nesse momento… Em busca desse calendário alternativo.

Assim sendo, podemos não comemorar mais o “dia das mães”, ou o “dia dos pais”… Mas podemos fazer o “dia de quem cuida de mim”, que inclui todas as crianças e famílias que desejarem participar.

Podemos não mais fazer a “festa junina” tradicional da igreja católica, mas podemos fazer a “festa da cultura brasileira”.

Podemos não mais fazer comemorações sem sentido no “dia da mulher”, “dia do índio”, “dia da abolição da escravatura”. Mas podemos respeitar as lutas desses grupos e celebrar, com eles, as suas datas importantes.

Podemos não mais comemorar o “natal”, e a “páscoa”, datas religiosas extremamente tomadas pelo consumo. Mas podemos comemorar o “dia da solidariedade”, o “dia da gentileza”, o “dia da comunidade”. Por que não?

“Dia do livro”, “semana internacional do brincar”, “dia da poesia”, “dia da arte”… São muitas as possibilidades de festa, celebração e consciência.

Vamos celebrar?

DIA DA MULHER – UM DIA DE LUTA

     

  Por Professora Karina Cabral             

CARTA ÀS FAMÍLIAS Nº 1 / 2016

08 DE MARÇO – DIA INTERNACIONAL DA MULHER

               O dia 08 de março é muito mais que um dia para ganhar elogios vazios, flores ou chocolates. É um dia para lembrar uma luta histórica e não terminada contra a opressão da mulher, em todos os lugares do mundo.

A situação da mulher ainda é triste e injusta. Em nosso país – o sétimo do mundo onde mais se assassinam mulheres – a cada 15 minutos, uma mulher é agredida, geralmente por alguém que ela conhece e confia. As mulheres ganham salários menores que os homens exercendo a mesma função, mesmo estudando, em média, dois anos a mais. Ainda, quando engravidamos ou quando um filho ou filha nosso adoece e precisa ser levado ao médico, somos mal vistas por nossos chefes – a maioria, homens. Trabalhamos em casa e fora de casa, muitas vezes sem a ajuda de ninguém. Somos o tempo todo julgadas por tudo que fazemos e pensamos. Em um mundo pensado e construído sob a ótica do homem, somos desrespeitadas e chacoteadas ao falar nossa opinião, ao dirigir, ao escolher a roupa que vamos vestir, ao caminhar na rua. A mídia e a cultura em que vivemos nos dizem que nosso cabelo, nossa pele, nossas rugas, nossos quilos a menos ou a mais, nosso jeito de corpo não é bom e precisa ser mudado para se adequar a padrões impossíveis, e sofremos tentando ser aceitas. Em muitos lugares do mundo, mulheres ainda não podem votar, trabalhar, estudar, sequer mostrar o rosto, e são mutiladas, violentadas, espancadas, humilhadas, apedrejadas, torturadas, diminuídas. Por tudo isso, nossa luta contra a opressão ainda é grande.

Opressão é toda força maior que nos obriga a fazer algo que não queremos fazer, dizer o que não queremos dizer, ser o que não queremos ser, calar quando precisamos falar. Opressão é aquilo que nos humilha, nos maltrata, nos faz sentir pequenas, tristes, angustiadas… O que nos machuca, por dentro e por fora. Quem é oprimido se sente apertado, colocado contra a parede… Estragado. A opressão que vem de fora acaba construindo em nós um sentimento que passa a vir de dentro. De tanto sermos tratadas como um lixo, começamos a achar que merecemos isso, que o mundo é assim mesmo, que a pessoa que nos faz mal, na verdade, não é tão ruim assim, que o sofrimento é comum… E que não podemos ser felizes do jeito que pensávamos. Aos poucos, vai morrendo a força para lutar contra aquilo que oprime.

A opressão vem da cultura, da mídia, da televisão, da igreja, da escola, da política, do nosso trabalho, de pessoas que nunca vimos. Mas, dói mais a opressão que vem de nossos maridos ou companheiros, nosso irmãos, nossos pais, nossos filhos e também de outras mulheres que conhecemos, amamos e confiamos. Contra esses, dói muito resistir e perceber.

Amanhã é um dia de luta e reflexão sobre a condição feminina. Se você é mulher, esperamos que você pense e consiga identificar, em sua vida, aquilo que faz mal a você, que oprime e tira a sua liberdade, e consiga buscar alternativas, força e motivos para lutar contra isso, inclusive se unindo a outras pessoas que estão nessa luta também. E se você é homem, esperamos que você também reflita e consiga pensar em um jeito mais igualitário de viver, homens e mulheres, lado a lado, nas mesmas condições de pessoas inteiras que somos.

Em nossa escola, educamos as meninas e meninos com essa visão – tentando ensinar a elas e a eles que todos são livres, que todos têm direitos e merecemos ser respeitados como pessoas, sendo homens ou mulheres. Partilhamos disso com vocês e parabenizamos a todas as mulheres que lutam e se esforçam para ser, a cada dia, mais felizes consigo mesmas e com o mundo onde vivem.

Educadoras da EMEI Jardim Monte Belo

QUE PESSOAS DEIXAREMOS PARA O NOSSO MUNDO?

Por Professora Karina Cabral

Este foi o texto trabalhado por todas as educadoras na última reunião de pais e mães. Ele veio de uma necessidade cada vez maior de discutir as questões do preconceito, discriminação e intolerância em nossa sociedade, como elas afetam a nós mesmos e como chegam às crianças. Essa necessidade veio de situações reais que vimos e vivemos com os pequenos, e que nos assustam… Mas também nos acordam. O texto calou fundo nos representantes das famílias. Aqui partilhamos com vocês!

Olá, famílias!

Como educadoras, gostaríamos de começar com vocês uma conversa difícil, mas necessária. É uma conversa que devemos fazer não apenas na escola, mas na sociedade como um todo. Ela diz respeito a três coisas que nos ferem, como pessoas e como comunidade: O PRECONCEITO¹, A DISCRIMINAÇÃO² E A INTOLERÂNCIA³ – problemas que, frequentemente, resultam em violência (física ou psicológica).

Nossas crianças são pequenas ainda, mas já têm formadas muitas ideias sobre o mundo. Observam não apenas o que dizemos, mas também cada uma de nossas ações, e a partir disso, refletem e constroem suas visões sobre elas mesmas, sobre as outras pessoas e sobre as coisas. E, mesmo tão pequenas, muitas vezes, elas já nos mostram atitudes preocupantes em relação à aceitação de outras pessoas.

Aqui na escola as crianças convivem muito e têm o direito de expressarem o que pensam e o que sentem. Cada uma delas vem de uma família, uma origem, tem uma cor de pele, uma religião, um jeito de ver a vida. Cada criança aqui teve experiências diferentes das outras e tudo isso faz com que elas sejam quem são; a isso chamamos de identidade. Do momento de nossa concepção, até envelhecermos, estamos sempre fazendo e refazendo as linhas de nossa identidade.

E se cada um tem uma identidade (que, como nossa impressão digital, é única no mundo), e se todos somos diferentes, certamente, ao nos relacionarmos com outras pessoas, estranharemos essas diferenças. É normal que as crianças se sintam curiosas acerca das diferenças, físicas ou psicológicas, que enxergam em outras crianças. Mas é o momento de mostrarmos pra elas que o diferente não é melhor nem pior, é apenas diferente. Nossa obrigação, como pessoas, como cidadãos e cidadãs, é respeitar toda e qualquer pessoa, seja ela como seja.

Aqui na escola convivemos com muitas crianças e sabemos o quanto elas, mesmo parecendo inocentes, podem ser cruéis. Identificamos, diariamente, situações de preconceito, discriminação e intolerância, contra as quais nos posicionamos firmemente como educadoras. Algumas delas:

  • Etnia: crianças que dizem “não gostar” de outras de pele negra; comentários sobre cabelos crespos, dizendo que são “feios” ou “ruins”, comentários maldosos sobre características físicas.
  • Gênero: crianças que não deixam os amigos ou as amigas brincarem por ser “brincadeira de menino” ou “menina”; meninos que se referem às colegas como “piriguetes” ou “vagabundas” (e outros nomes piores); crianças que repreendem colegas que choram dizendo que “homem não chora”.
  • Econômico/ Social: crianças que se referem com desprezo às funcionárias da limpeza, crianças que dizem que a mochila do amigo é “de pobre”, crianças que exibem um brinquedo, roupa ou pertence dizendo que o outro “não tem” ou “não pode comprar”.
  • Estético: crianças que ofendem ou zombam de colegas gordos ou obesos; crianças que não querem brincar com um amigo por achá-lo “feio”; crianças que riem de outras por alguma característica física.
  • Deficiência/dificuldade: crianças que se negam a entender as prioridades que são dadas aos colegas cadeirantes; crianças que riem dos outros por precisar de apoio (óculos, botas especiais, etc), ou por serem mais lentos ao andar ou brincar.

Cada vez que uma coisa assim acontece, nós conversamos com as crianças – as que magoam e as que são magoadas – para tentar conscientizá-las sobre a gravidade de excluir, discriminar ou desrespeitar uma pessoa. Mas não é uma tarefa fácil. Especialmente quando as crianças justificam suas ações citando a família – pais, mães, irmãos e irmãs, avós e avôs, tios e tias – como referência e modelo de comportamento.

Por isso, queremos que esta carta sirva de reflexão para vocês… Para que possam pensar sobre a responsabilidade que é educar uma criança para que seja uma pessoa íntegra, que conversa bem com todos e todas e que respeite as pessoas.

Para tanto, vocês, adultos referência, educadores responsáveis, família… Precisam observar bem suas próprias atitudes, a maneira como expressam suas crenças e conversar com elas sobre tudo isso. Precisam ser firmes em mostrar a elas o que esperam delas, e o que desaprovam em seus comportamentos. E acima de tudo, precisam dar bons exemplos e modelos de referência para elas.

Quando elas veem que vocês respeitam os outros; que os homens não xingam nem agridem mulheres; que vocês falam educadamente com todas as pessoas, que não discriminam ninguém, que não querem impor suas ideias, que não fazem piadas sobre características ou problemas de ninguém, que estão sempre espalhando paz e harmonia, evitando brigas e confusões… Que cuidam do que elas veem na televisão, ouvem no rádio, veem na internet, na rua, na igreja, nas festas… Que tomam cuidado para salvar a infância delas e não falar de assuntos inapropriados na frente delas… Em tudo isso, vocês estão educando-as para ser aquele tipo de humano com quem se deseja conviver, que respeita os demais e que ajuda na construção de um mundo bom de fato – bom para todos e todas!

Não é fácil, mas é possível. Precisamos da ajuda de vocês!

E certos da colaboração… Já agradecemos!

Educadoras da EMEI Jardim Monte Belo

 

 

Educadoras da EMEI Jardim Monte Belo

 

 

 

 

  1. “Preconceito” se refere a ideia que temos sobre algo antes de conhecer, pré-julgando.
  2. “Discriminação” é uma ação agressiva de excluir alguém de alguma situação por ele ou ela ser como é.
  3. “Intolerância” é uma postura de não aceitar nada diferente.

 

DIA DA MULHER – O NOSSO PRESENTE

Imagem: Cecília Esteves

Por Professora Karina Cabral

Texto enviado às famílias na última sexta-feira por ocasião do Dia da Mulher

Qual Presente?

Queridas mães, avós, tias, irmãs, cuidadoras, vizinhas, amigas de nossa comunidade.

Domingo, dia 08 de março é o dia internacional da mulher.

Nó, aqui da EMEI Jardim Monte Belo, somos uma equipe de mulheres. Somos mães, filhas, esposas, trabalhadoras, cidadãs, amigas…  E educadoras de pequenas e pequenos que serão homens e mulheres em pouco tempo. E gostaríamos de dar a vocês, mulheres como nós, um presente no dia 08.

Não é uma flor, um poema, uma dobradura ou uma homenagem em forma de canção. Na verdade, o presente que gostaríamos de dar a vocês, mulheres… É um mundo diferente.

Um mundo onde mulher nenhuma fosse culpada, marginalizada ou maltratada simplesmente por ser mulher…

Um mundo onde não tivéssemos mais que saber que mulheres foram estupradas, abusadas, exploradas, mutiladas, coagidas, espancadas e assassinadas apenas por serem mulheres…

Um mundo onde mulheres e homens tivessem os mesmos direitos, os mesmos salários, as mesmas obrigações, as mesmas oportunidades de trabalho e estudo, as mesmas atribuições em casa e responsabilidades na criação dos filhos.

Um mundo onde todas as mulheres não tivessem que ter vergonha de seu corpo, seja ele do tamanho, cor, jeito que for, tenha as medidas que tiver. Um mundo onde nossas ideias, sentimentos e situações valessem mais que nossa aparência, e onde não nos tratassem como um pedaço de carne a ser escolhida no açougue.

Um mundo onde as mulheres percebessem qualquer abuso emocional, financeiro, físico, e não permitissem isso nunca mais.

Um mundo onde piadas sobre nossa capacidade e nossas características femininas não tivessem a menor graça.

Um mundo onde pudéssemos escolher o que é melhor para nós, onde nossa voz fosse ouvida, nossa opinião fosse respeitada e onde fossemos donas de nós mesmas.

Mas esse mundo ainda não existe. No nosso mundo, a mulher ainda é massacrada e desvalorizada.

Então, queridas mulheres… Nosso maior presente é a luta. É a solidariedade a outras mulheres (precisamos umas das outras!). É a oportunidade de refletir juntas é a mão estendida a qualquer mulher ofendida, humilhada, espancada, vitimada que precisa de nós. É dar aos nossos meninos e meninas o mesmo tratamento, como seres humanos lindos e inteiros que são. É refletir sobre o preconceito a discriminação, a discriminação que nós mesmas sofremos, e nos posicionar, lutando contra tudo isso.

É um mundo diferente que desejamos para nós mesmas, para vocês, para nossas filhas, sobrinhas, netas, afilhadas, amigas… Para nossas alunas.

No dia 08 de março, é nosso presente o compromisso de lutar todos os dias para esse mundo acontecer.

Não nos retiremos da luta!

Parabéns a todas as guerreiras.

Texto dedicado a todas as mulheres, pela equipe da EMEI Jardim Monte Belo

INCLUSÃO NA ESCOLA MUDANDO A SOCIEDADE EXCLUDENTE!

Hoje é um dia muito especial para a nossa EMEI! A qualidade do nosso trabalho com crianças portadoras de necessidades educacionais especiais foi reconhecida e estaremos no VI Congresso Paulista de Educação Infantil ( COPEDI ) para falar sobre nossos princípios, nossa prática e nossa equipe no tocante à inclusão.

É muito especial para nós mostrar a outros educadores, com alegria e paixão, que a inclusão dá certo!

Segue abaixo o texto que enviamos para o COPEDI. Ele retrata quais são as crenças e ações que guiam nosso trabalho com todas as crianças… Inclusive as portadoras de alguma necessidade especial.

Por Karina Cabral, Ana Damasceno e Lucimar Lara

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Inclusão: a escola que transforma vidas mudando uma sociedade excludente

A história de nossa EMEI com a inclusão de crianças portadoras de necessidades especiais no contexto escolar, como tantas outras, começou a partir de um direito garantido externamente. Por determinações legais, as crianças com algum tipo de deficiência ou inseridas em alguma situação especial, passaram a ter direito de frequentar a escola regular. A Constituição Brasileira, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e posteriormente as portarias de matrícula da Prefeitura de São Paulo vieram para nós como uma determinação.

Não demorou em que essas crianças começassem a chegar à escola. Recebemos crianças com deficiência física e motora, e também um caso de deficiência intelectual. E embora nossos órgãos superiores tenham sido rápidos em apontar legalmente o direito das crianças, todas elas, de frequentar a escola… Também não demorou em percebemos que estaríamos sozinhas nesse processo, sem apoio institucional, sem orientação ou estudo especial, sem nenhuma mudança estrutural, sem tempo para refletir. As crianças e suas famílias estavam ali, nós também… E era preciso encontrar um modo de tornar esse convívio uma real oportunidade para que todos os envolvidos conseguissem conviver e avançar, de alguma forma, para o ideal proposto – uma escola onde todos tenham oportunidade de estar juntos… Uma escola como sonhou o mestre Paulo Freire – com todos se educando em comunhão.

E foi um longo caminho. Um caminho onde passamos por uma nova formação para os educadores; uma nova visão da equipe; um novo jeito de conversar com as famílias; uma nova visão de mundo; uma longa reflexão sobre a fragilidade e a força humana; um novo jeito de planejar e avaliar as práticas educativas; uma nova visão da função social dos educadores e da escola. Uma grande desconstrução e reconstrução de conceitos, práticas, ideais. E hoje, 10 anos depois, descobrimos que todas as inclusões de crianças com necessidades educativas especiais transformou nossa EMEI em uma nova escola para todos. Aprendemos todos… Todos fomos incluídos em um novo jeito de pensar as relações humanas, dentro e fora do ambiente escolar.

A história da escola, de maneira geral, é de exclusão. Por muitas vezes, ao longo de sua existência, a instituição educativa existiu para reforçar e propagar a diferença que se fazia na sociedade. Pobres, mulheres, negros e outras etnias, deficientes, idosos, pessoas com problemas e desajustes sociais e afetivos… Todos eles, em algum momento – hora de forma aberta e declarada, hora de forma velada – tiveram a porta do conhecimento e do convívio fechada por serem maiorias ou minorias rejeitadas e marginalizadas pela sociedade. Foi, e é uma luta muito grande abrir, escancarar, arrombar essa porta e deixar que todos passem por ela. Uma luta legal, ideológica, prática. E ao tomar parte disso como escola, nos engajamos nessa luta.

São muitas as histórias de sucesso, e poderíamos contar como Guihermes, Gustavos, Anas, Marias, Nicoles, Joãos e tantos outros entraram aqui e, a partir do que viveram na EMEI, conseguiram transpor seus limites. Poderíamos também dizer como receber essas crianças, apesar do medo, da dor, da revolta, do cansaço, mudou a vida de cada um dos educadores da escola. Mas para relatar nossa prática com a inclusão, pensamos no que todas essas crianças, seus pais e os educadores que passaram por aqui e cuidaram delas deixaram conosco, no que ajudaram a construir. Elencamos alguns princípios que fundamentam nosso trabalho. Esperamos assim esclarecer qual a nossa visão do assunto – sempre em construção, sempre mutante, sempre em busca de melhoria – e como chegamos a afirmar, com muita tranquilidade e orgulho, que a inclusão na escola infantil é possível… E que a desejamos. Cada vez mais.

 

  • INCLUIR É UM DIREITO INQUESTIONÁVEL

A criança com necessidade especial tem o direito de estar na escola, seja qual for sua característica peculiar, problema de saúde ou histórico. E isso não se discute – é direito dela. Ouvimos dos pais que chegaram com um filho diagnosticado com algum tipo de deficiência relatos doloridos de como foram rejeitados em outros lugares… De como lhes foi negado o direito de matricular seu filho ou filha na escola. Por isso, tomamos muito cuidado em esclarecer essas famílias que a inclusão é um direito.

O primeiro movimento por parte da escola é consciente, e sempre de aceitação – desde a secretaria, até a chegada na sala de aula, com a professora, procuramos abrir os braços para essa criança e sua família.

Não assustamos as famílias, não recomendamos que deixem a matrícula para depois, não damos informações erradas querendo expulsá-las de perto, não nos escondemos. As crianças – todas – são aceitas e participam de todas as atividades, conforme suas possibilidades.

  • INCLUIR É UM TRABALHO DE TODA A EQUIPE

Todos os funcionários da escola são educadores. Cremos nisso e procuramos agir de acordo com essa crença. A secretária que recolhe os documentos para a matrícula, a merendeira que prepara um alimento especialmente para aquela criança que não pode comer gordura ou açúcar, a auxiliar de limpeza que corre para limpar o vômito de um aluno, a diretora, o transportador, a professora, as agentes de apoio… Todos tomam parte responsável desse trabalho. Essas crianças precisam de atenção especial, cuidados especiais e isso envolve toda a equipe, que deve conhecer todos os casos e participar da vida da criança; o aluno ou aluna não é só da professora, mas de todos.

Essa unidade na equipe anula um dos principais fatores que dificultam a inclusão na maioria das escolas: sentindo-se amparada, a professora consegue lidar melhor com a criança e com a realidade da inclusão. Dividindo a responsabilidade, o peso físico, as dificuldades e avanços dos portadores de necessidades especiais, os educadores se envolvem mais no trabalho, a professora consegue refletir mais sobre suas ações de mediação, a família se sente mais tranquila e a criança, com toda certeza, é melhor atendida.

  • DENTRO DA ESCOLA QUE INCLUI NÃO PODE HAVER PEQUENAS EXCLUSÕES

Aos poucos fomos aprendendo que uma criança que não anda pode dançar; uma criança que não fala pode se comunicar, cantar, falar em público; uma criança que não consegue   controlar seus impulsos pode participar de uma festa de aniversário, ou de uma gincana; uma criança que não estabelece vínculos afetivos pode fazer amigos – e é justamente esse o nosso papel. A criança com necessidades especiais, mesmo que não entendamos muito sobre seus problemas, e levando em consideração questões de segurança e saúde, não deve ser negligenciada, e nem excluída de nenhuma atividade – seja dança, leitura de histórias, brincadeiras, refeições, escritas, desenhos, pinturas, passeios. Elas estão sempre junto às outras crianças, e se precisar de ajuda para realizar movimentos, ou para fazer algum tipo de raciocínio, o professor ou outra pessoa, ou mesmo as outras crianças estarão perto, ajudando a desafiá-las, para que possam contornar suas dificuldades, e até mesmo superá-las.

Não concordamos com a visão de colocar uma espécie de “babá” para a criança deficiente, fazendo com que ela seja acompanhada todo o tempo. Pensamos que ela, como todas as outras, pode conviver em grupo, aprendendo a colocar suas necessidades e viver os prazeres e dificuldades desse convívio.

  • NOSSO PLANEJAMENTO DIDÁTICO E AVALIAÇÃO SÃO REPENSADOS PARA ACOLHER AS CRIANÇAS COM NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS

Ao contrário de tantas outras visões de educação, que pregam a homogeneidade como condição principal para a boa educação, acreditamos nas diferenças. Acreditamos na interação entre crianças de diferentes jeitos, idades, classes sociais, possibilidades. Acreditamos no adulto com intenções educativas claras mediando a ação de todas as crianças com objetos de conhecimento. E acreditamos no direito das crianças em ter acesso ao que de melhor a humanidade produziu em termos de cultura humana – ciência, arte, letras, tecnologia, relações, música, corpo, movimento. Acreditamos na brincadeira como grande estratégia de trabalho, como grande prazer. Acreditamos na capacidade das crianças de cuidarem de si mesmas, de cuidarem de outras crianças, de solicitarem a ajuda dos adultos. E tudo isso também deve ser oferecido às crianças com necessidades especiais.

Crianças diferentes são bem vistas, desejadas e participam de maneiras diferentes de nossas propostas… São avaliadas de maneiras diferentes. E não falamos apenas das crianças inclusas, mas de todas elas. Lutamos contra um ideal de aluno em nós, educadores; lutamos, em nós mesmas, contra essa ideia de que todos serão ensinados e aprenderão da mesma maneira. Planejamos situações onde as crianças podem contribuir com o que sabem, aprender com seus pares e mediadores… E avaliamos cada criança em comparação com ela mesma, e não apenas com nossas metas pedagógicas. Reconhecemos seus avanços e passamos a trabalhar as dificuldades que ainda restam.

  • A FAMÍLIA E A COMUNIDADE TAMBÉM SÃO INCLUÍDAS

No começo, é sempre estranho para todos. A criança com deficiência que chega é recebida com muito cuidado. Sua família é ouvida pela coordenadora e pela professora. A escola e os profissionais são todos apresentados. A criança tem uma conversa prévia e individual com a professora, para conhecê-la. E o horário de acolhimento é diferente – sempre respeitando as possibilidades da criança – para que ela possa se acostumar aos poucos com a escola.

A família da criança com necessidade especial é sempre acolhida com muito cuidado. As angústias dos pais são ouvidos à exaustão, porém, sempre deixamos clara a nossa postura – cuidado, sim, mas sem protecionismo. A criança irá participar de todas as atividades, e não a pouparemos de fazer coisas, e nem do convívio saudável com outras crianças.

Acompanhamos os tratamentos médicos, informamos periodicamente a família sobre o desenvolvimento da criança, e sempre que vai haver algum evento especial na escola – festas, danças, teatros, etc – fazemos questão de informá-los de maneira especial, pedindo que a criança participe.

Muitas mães e pais não admitem as necessidades especiais do filho ou filha, e com essas famílias as conversas costumam ser mais longas e difíceis… Mas são feitas mesmo assim. Muitas vezes é na escola que os problemas começam a aparecer, e nesse momento, tão difícil para a família, tentamos nos colocar como parceiros. Se a criança tem alguma necessidade prática especial – de alimentação, de material – ajudamos a providenciar, e organizar.

As outras famílias também são incluídas no debate. Tentamos esclarecer as coisas quando acontece algum ato de discriminação por parte delas, do tipo “não quero que meu filho brinque com esse tipo de criança”. E também ouvimos todas as angústias e dúvidas delas.

Buscamos na comunidade entidades, atividades, diálogos – especialmente através do Conselho de Escola – que possam ajudar nesse caminho, que não fazemos sozinhas.

  • A INCLUSÃO É UMA LUTA SOCIAL

Se dentro da escola fazemos o que podemos, fora dela também temos um papel muito importante. Por isso, estamos sempre lutando pelas crianças portadoras de necessidades especiais.

Lutando para que haja menos alunos por sala, lutando para que a equipe tenha mais pessoas e mais formação, lutando para que tenhamos material, apoio multidisciplinar suficiente, lutando para que todas as crianças sejam atendidas nos serviços médicos que necessitam, lutando para que as pessoas sejam informadas sobre o que é o direito do deficiente e do portador de necessidade especial.

  • BUSCAMOS AJUDA FORA DA ESCOLA, E OFERECEMOS NOSSA AJUDA TAMBÉM

Fazemos de tudo para interagir com os profissionais que cuidam dessa criança fora da escola, e para buscar apoio para ela. Se for preciso alguma adaptação na rotina, nos materiais que usamos ou no jeito de falar com a criança, ensiná-la, interagir com ela, será feito, na medida do possível – e às vezes do impossível também… Não nos negamos a participar de nenhum tratamento ou recomendação médica. E nos colocamos à disposição das equipes para relatar, conversar ou aprender coisas sobre a criança.

  • BUSCAMOS DIVULGAR NOSSAS PRÁTICAS COM INCLUSÃO

Nas reuniões de pais, em encontros com outros educadores, em revistas especializadas e em nosso blog estamos sempre contribuindo, escrevendo, registrando nossa prática, para que ela não seja perdida, e também para que a escola tenha uma cultura educacional que vá além das pessoas que lá estão hoje.

  • TODOS SÃO INCLUÍDOS

Toda vez que a palavra inclusão é mencionada no ambiente escolar, logo imaginamos “incluir” alguém com uma deficiência explícita. Pensamos em alguém com cadeiras de rodas, alguém com um transtorno mental ou psíquico, alguém que não ouve, não fala ou não escuta bem e que precisará de ajuda extra para conviver e aprender em um ambiente com outras pessoas ditas “normais”.

Toda essa fantasia em torno da deficiência torna mais difícil a discussão e o amadurecimento de educadores e famílias. A experiência com alunos ditos deficientes fez acordar para uma realidade – a diferença ( seja ela uma deficiência, uma qualidade, ou simplesmente uma característica ) faz parte do humano. E por isso, todos, em algum momento de nossas vidas, precisamos ser incluídos.

Cada criança que recebemos é de um jeito. Tímidos, agressivos, falantes, inteligentes demais, arredios, desconcentrados, medrosos, de todas as etnias e tipos físicos, crianças com alguma necessidade alimentar ou de saúde sutil, carentes, estressados, agitados, abandonados, tristes ou alegrinhos, com histórias familiares complicadas… Cada um deles merece um olhar especial, momentos de dedicação, uma conversa individual, um carinho diferente. Entre eles, estão as crianças deficientes. Faz parte da profissão de um educador acolher a diferença, e ao mesmo tempo, incentivar o grupo a ser um grupo de verdade.

Todos às vezes ficamos deficientes de algo por algum motivo. Alguém que torce o pé e precisa de uma rampa no local de trabalho, pensa na vida das pessoas que usam cadeiras de roda e muletas todos os dias. Podemos pensar em nossas dificuldades que não conseguimos resolver, nas incapacidades, nas coisas que não conseguimos aprender. Todos às vezes não são aceitos em um grupo ou lugar por não corresponder às expectativas dos outros, pré-julgada.

Convivendo com essas crianças, percebemos que mais do que a consciência racional de uma deficiência, seja ela qual for, é preciso sensibilidade e firmeza para encará-la e transpô-la. Todos precisamos ser incluídos. E aí está o bonito e o difícil da coisa – se é ao nos confrontarmos com outros que nos damos conta das nossas diferenças, é também na empatia do que nos faz iguais que encontramos o conforto e a superação. E somos iguais por sermos humanos. Isso não é diferente pra nenhum de nós.

 

RESULTADOS

Os benefícios da educação inclusiva não são apenas para a criança deficiente ou com alguma necessidade especial atendida, mas para todos. Os educadores começam a repensar seus métodos e intenções – não só para a criança em questão, mas para todos. Outros funcionários começam a se envolver mais no processo educativo, compreendê-lo melhor, e portanto começam a compreender melhor sua função educativa – TODOS na escola são educadores. O grupo de educadores também começa, a partir das necessidades dessa criança, a se ajudar, entrosar mais e trabalhar em conjunto. Funcionários e outras famílias começam a mudar o olhar sobre questões como deficiência, igualdade de direitos, limites, solidariedade – mudanças de paradigmas e de visão.

Mas o principal ganho está para as crianças que convivem com o portador de necessidade especial. Eles são colocados nessa reflexão sobre o relacionamento com outro ser humano diferente, e começam a pensar em coisas como respeito, ritmo, ajuda, diferença. Começam a enxergar as facilidades da criança com necessidade especial e também suas próprias dificuldades, e encarar isso como parte da vida. Eles serão cidadãos melhores na medida em que convivem com e deficiência, com a especificidade de outro ser humano e são envolvidos nesse processo de ajuda. Compreenderão melhor a conviver com essas pessoas, até que chegue um dia em que não precisemos mais falar em inclusão… Porque já será natural essa convivência e aceitação do diferente.

ELES SERÃO MELHORES…

Por

Professora Karina Cabral

Há esperança para o mundo. Digo isso olhando as crianças. Eles têm apenas 3, 4 anos. E embora eu saiba que, como pregava a linda canção do Louis Armstrong, o mundo é maravilhoso e eles saberão muito mais do que eu jamais poderei saber, algo é certo pra mim – eles farão do mundo um lugar melhor pra se viver.

Os meninos serão homens melhores, porque agora brincam com bonecas, panelinhas, perucas e casinha como qualquer menina. Eles abraçarão melhor os filhos porque ninam os bebês de brinquedo sem culpa, e dividirão as tarefas de casa com as meninas, que por sua vez, também serão mulheres melhores. Elas querem ser motoristas, médicas, querem empurrrar o carrinho, e não aceitam mais ficar de fora de nenhuma brincadeira só por serem meninas – sem deixar de adorar batom e maquiagem.

Eles serão cidadãos melhores porque não aceitam ordens absurdas sem questionar os adultos, e perguntam sobre tudo que têm dúvida. Serão melhores por entender a importância de aprender a amarrar o próprio sapato, tirar a própria blusa, resolver os próprios conflitos, tomar decisões e fazer escolhas. Serão mais ordeiros por terem muitas coisas pra organizar e guardar, e por, mesmo sendo tão pequenos, terem acesso à informações, livros, computadores, documentários, boa música, arte e cultura, internet e todo tipo de esporte.

Mas quando vejo as crianças agindo em relação às crianças com deficiências e necessidades especiais, vejo que ele serão MUITO melhores que nós.

Convivo tanto com eles que às vezes esqueço o quanto são pequenos… O quanto ainda têm pela frente. São criancinhas de apenas quatro anos, cheias de vontades individuais, egocêntricas, ainda tentando se entender no mundo. Personalidades em choque relacional, pessoas inteiras que até pouco tempo não conheciam muito mais que o bordado da barra da saia da mãe. Crianças carentes de atenção, de orientação, de descoberta, de carinho, de mim… Ávidas pelo mundo e tudo que ele tem, capazes de aprender muito, e com uma velocidade espantosa. E, ainda assim, tão pequenos e envolvidos em si mesmos, eles conseguem olhar para as necessidades do outro, com sensibiliade espantosa.

Eles conseguem esperar a vez sem empurrar. Conseguem pegar a mochila do amigo. Conseguem dar prioridade na fila do lanche. Conseguem ajudar a descer e subir da cadeira de rodas. Conseguem reduzir o ritmo de uma brincadeira para que todos possam brincar. Tratam com muito respeito o fato de um amigo não andar, não falar ou usar fraldas. Conseguem perceber quando ele precisa de água, quando não está sentado confortavelmente, quando  não alcança alguma coisa. E estão sempre lá pra ajudar.

Quando eu era criança, era feio ser diferente. Eu nunca convivi com nenhuma criança deficiente na escola. Quem era negro, gordo, quem usava óculos, ou tinha uma nacionalidade diferente, quem era mais pobre ou tinha pais esquisitos, quem era adotado ou nordestino, todas essas pessoas eram excluídas e agrupadas à parte, como se fosse feio não ser do jeito ideal. E isso causava tristeza, agressão, apatia, dor, raiva.

Alguém diria, o mundo vai estragá-los. Sim, sempre estraga, e isso é inevitável. Há um lado escuro no ser humano que é assustador.

Mas continuo crendo que eles ainda serão melhores. E isso me dá força pra ir continuar trabalhando todas as manhãs.

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