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INCLUSÃO NA ESCOLA MUDANDO A SOCIEDADE EXCLUDENTE!

Hoje é um dia muito especial para a nossa EMEI! A qualidade do nosso trabalho com crianças portadoras de necessidades educacionais especiais foi reconhecida e estaremos no VI Congresso Paulista de Educação Infantil ( COPEDI ) para falar sobre nossos princípios, nossa prática e nossa equipe no tocante à inclusão.

É muito especial para nós mostrar a outros educadores, com alegria e paixão, que a inclusão dá certo!

Segue abaixo o texto que enviamos para o COPEDI. Ele retrata quais são as crenças e ações que guiam nosso trabalho com todas as crianças… Inclusive as portadoras de alguma necessidade especial.

Por Karina Cabral, Ana Damasceno e Lucimar Lara

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Inclusão: a escola que transforma vidas mudando uma sociedade excludente

A história de nossa EMEI com a inclusão de crianças portadoras de necessidades especiais no contexto escolar, como tantas outras, começou a partir de um direito garantido externamente. Por determinações legais, as crianças com algum tipo de deficiência ou inseridas em alguma situação especial, passaram a ter direito de frequentar a escola regular. A Constituição Brasileira, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e posteriormente as portarias de matrícula da Prefeitura de São Paulo vieram para nós como uma determinação.

Não demorou em que essas crianças começassem a chegar à escola. Recebemos crianças com deficiência física e motora, e também um caso de deficiência intelectual. E embora nossos órgãos superiores tenham sido rápidos em apontar legalmente o direito das crianças, todas elas, de frequentar a escola… Também não demorou em percebemos que estaríamos sozinhas nesse processo, sem apoio institucional, sem orientação ou estudo especial, sem nenhuma mudança estrutural, sem tempo para refletir. As crianças e suas famílias estavam ali, nós também… E era preciso encontrar um modo de tornar esse convívio uma real oportunidade para que todos os envolvidos conseguissem conviver e avançar, de alguma forma, para o ideal proposto – uma escola onde todos tenham oportunidade de estar juntos… Uma escola como sonhou o mestre Paulo Freire – com todos se educando em comunhão.

E foi um longo caminho. Um caminho onde passamos por uma nova formação para os educadores; uma nova visão da equipe; um novo jeito de conversar com as famílias; uma nova visão de mundo; uma longa reflexão sobre a fragilidade e a força humana; um novo jeito de planejar e avaliar as práticas educativas; uma nova visão da função social dos educadores e da escola. Uma grande desconstrução e reconstrução de conceitos, práticas, ideais. E hoje, 10 anos depois, descobrimos que todas as inclusões de crianças com necessidades educativas especiais transformou nossa EMEI em uma nova escola para todos. Aprendemos todos… Todos fomos incluídos em um novo jeito de pensar as relações humanas, dentro e fora do ambiente escolar.

A história da escola, de maneira geral, é de exclusão. Por muitas vezes, ao longo de sua existência, a instituição educativa existiu para reforçar e propagar a diferença que se fazia na sociedade. Pobres, mulheres, negros e outras etnias, deficientes, idosos, pessoas com problemas e desajustes sociais e afetivos… Todos eles, em algum momento – hora de forma aberta e declarada, hora de forma velada – tiveram a porta do conhecimento e do convívio fechada por serem maiorias ou minorias rejeitadas e marginalizadas pela sociedade. Foi, e é uma luta muito grande abrir, escancarar, arrombar essa porta e deixar que todos passem por ela. Uma luta legal, ideológica, prática. E ao tomar parte disso como escola, nos engajamos nessa luta.

São muitas as histórias de sucesso, e poderíamos contar como Guihermes, Gustavos, Anas, Marias, Nicoles, Joãos e tantos outros entraram aqui e, a partir do que viveram na EMEI, conseguiram transpor seus limites. Poderíamos também dizer como receber essas crianças, apesar do medo, da dor, da revolta, do cansaço, mudou a vida de cada um dos educadores da escola. Mas para relatar nossa prática com a inclusão, pensamos no que todas essas crianças, seus pais e os educadores que passaram por aqui e cuidaram delas deixaram conosco, no que ajudaram a construir. Elencamos alguns princípios que fundamentam nosso trabalho. Esperamos assim esclarecer qual a nossa visão do assunto – sempre em construção, sempre mutante, sempre em busca de melhoria – e como chegamos a afirmar, com muita tranquilidade e orgulho, que a inclusão na escola infantil é possível… E que a desejamos. Cada vez mais.

 

  • INCLUIR É UM DIREITO INQUESTIONÁVEL

A criança com necessidade especial tem o direito de estar na escola, seja qual for sua característica peculiar, problema de saúde ou histórico. E isso não se discute – é direito dela. Ouvimos dos pais que chegaram com um filho diagnosticado com algum tipo de deficiência relatos doloridos de como foram rejeitados em outros lugares… De como lhes foi negado o direito de matricular seu filho ou filha na escola. Por isso, tomamos muito cuidado em esclarecer essas famílias que a inclusão é um direito.

O primeiro movimento por parte da escola é consciente, e sempre de aceitação – desde a secretaria, até a chegada na sala de aula, com a professora, procuramos abrir os braços para essa criança e sua família.

Não assustamos as famílias, não recomendamos que deixem a matrícula para depois, não damos informações erradas querendo expulsá-las de perto, não nos escondemos. As crianças – todas – são aceitas e participam de todas as atividades, conforme suas possibilidades.

  • INCLUIR É UM TRABALHO DE TODA A EQUIPE

Todos os funcionários da escola são educadores. Cremos nisso e procuramos agir de acordo com essa crença. A secretária que recolhe os documentos para a matrícula, a merendeira que prepara um alimento especialmente para aquela criança que não pode comer gordura ou açúcar, a auxiliar de limpeza que corre para limpar o vômito de um aluno, a diretora, o transportador, a professora, as agentes de apoio… Todos tomam parte responsável desse trabalho. Essas crianças precisam de atenção especial, cuidados especiais e isso envolve toda a equipe, que deve conhecer todos os casos e participar da vida da criança; o aluno ou aluna não é só da professora, mas de todos.

Essa unidade na equipe anula um dos principais fatores que dificultam a inclusão na maioria das escolas: sentindo-se amparada, a professora consegue lidar melhor com a criança e com a realidade da inclusão. Dividindo a responsabilidade, o peso físico, as dificuldades e avanços dos portadores de necessidades especiais, os educadores se envolvem mais no trabalho, a professora consegue refletir mais sobre suas ações de mediação, a família se sente mais tranquila e a criança, com toda certeza, é melhor atendida.

  • DENTRO DA ESCOLA QUE INCLUI NÃO PODE HAVER PEQUENAS EXCLUSÕES

Aos poucos fomos aprendendo que uma criança que não anda pode dançar; uma criança que não fala pode se comunicar, cantar, falar em público; uma criança que não consegue   controlar seus impulsos pode participar de uma festa de aniversário, ou de uma gincana; uma criança que não estabelece vínculos afetivos pode fazer amigos – e é justamente esse o nosso papel. A criança com necessidades especiais, mesmo que não entendamos muito sobre seus problemas, e levando em consideração questões de segurança e saúde, não deve ser negligenciada, e nem excluída de nenhuma atividade – seja dança, leitura de histórias, brincadeiras, refeições, escritas, desenhos, pinturas, passeios. Elas estão sempre junto às outras crianças, e se precisar de ajuda para realizar movimentos, ou para fazer algum tipo de raciocínio, o professor ou outra pessoa, ou mesmo as outras crianças estarão perto, ajudando a desafiá-las, para que possam contornar suas dificuldades, e até mesmo superá-las.

Não concordamos com a visão de colocar uma espécie de “babá” para a criança deficiente, fazendo com que ela seja acompanhada todo o tempo. Pensamos que ela, como todas as outras, pode conviver em grupo, aprendendo a colocar suas necessidades e viver os prazeres e dificuldades desse convívio.

  • NOSSO PLANEJAMENTO DIDÁTICO E AVALIAÇÃO SÃO REPENSADOS PARA ACOLHER AS CRIANÇAS COM NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS

Ao contrário de tantas outras visões de educação, que pregam a homogeneidade como condição principal para a boa educação, acreditamos nas diferenças. Acreditamos na interação entre crianças de diferentes jeitos, idades, classes sociais, possibilidades. Acreditamos no adulto com intenções educativas claras mediando a ação de todas as crianças com objetos de conhecimento. E acreditamos no direito das crianças em ter acesso ao que de melhor a humanidade produziu em termos de cultura humana – ciência, arte, letras, tecnologia, relações, música, corpo, movimento. Acreditamos na brincadeira como grande estratégia de trabalho, como grande prazer. Acreditamos na capacidade das crianças de cuidarem de si mesmas, de cuidarem de outras crianças, de solicitarem a ajuda dos adultos. E tudo isso também deve ser oferecido às crianças com necessidades especiais.

Crianças diferentes são bem vistas, desejadas e participam de maneiras diferentes de nossas propostas… São avaliadas de maneiras diferentes. E não falamos apenas das crianças inclusas, mas de todas elas. Lutamos contra um ideal de aluno em nós, educadores; lutamos, em nós mesmas, contra essa ideia de que todos serão ensinados e aprenderão da mesma maneira. Planejamos situações onde as crianças podem contribuir com o que sabem, aprender com seus pares e mediadores… E avaliamos cada criança em comparação com ela mesma, e não apenas com nossas metas pedagógicas. Reconhecemos seus avanços e passamos a trabalhar as dificuldades que ainda restam.

  • A FAMÍLIA E A COMUNIDADE TAMBÉM SÃO INCLUÍDAS

No começo, é sempre estranho para todos. A criança com deficiência que chega é recebida com muito cuidado. Sua família é ouvida pela coordenadora e pela professora. A escola e os profissionais são todos apresentados. A criança tem uma conversa prévia e individual com a professora, para conhecê-la. E o horário de acolhimento é diferente – sempre respeitando as possibilidades da criança – para que ela possa se acostumar aos poucos com a escola.

A família da criança com necessidade especial é sempre acolhida com muito cuidado. As angústias dos pais são ouvidos à exaustão, porém, sempre deixamos clara a nossa postura – cuidado, sim, mas sem protecionismo. A criança irá participar de todas as atividades, e não a pouparemos de fazer coisas, e nem do convívio saudável com outras crianças.

Acompanhamos os tratamentos médicos, informamos periodicamente a família sobre o desenvolvimento da criança, e sempre que vai haver algum evento especial na escola – festas, danças, teatros, etc – fazemos questão de informá-los de maneira especial, pedindo que a criança participe.

Muitas mães e pais não admitem as necessidades especiais do filho ou filha, e com essas famílias as conversas costumam ser mais longas e difíceis… Mas são feitas mesmo assim. Muitas vezes é na escola que os problemas começam a aparecer, e nesse momento, tão difícil para a família, tentamos nos colocar como parceiros. Se a criança tem alguma necessidade prática especial – de alimentação, de material – ajudamos a providenciar, e organizar.

As outras famílias também são incluídas no debate. Tentamos esclarecer as coisas quando acontece algum ato de discriminação por parte delas, do tipo “não quero que meu filho brinque com esse tipo de criança”. E também ouvimos todas as angústias e dúvidas delas.

Buscamos na comunidade entidades, atividades, diálogos – especialmente através do Conselho de Escola – que possam ajudar nesse caminho, que não fazemos sozinhas.

  • A INCLUSÃO É UMA LUTA SOCIAL

Se dentro da escola fazemos o que podemos, fora dela também temos um papel muito importante. Por isso, estamos sempre lutando pelas crianças portadoras de necessidades especiais.

Lutando para que haja menos alunos por sala, lutando para que a equipe tenha mais pessoas e mais formação, lutando para que tenhamos material, apoio multidisciplinar suficiente, lutando para que todas as crianças sejam atendidas nos serviços médicos que necessitam, lutando para que as pessoas sejam informadas sobre o que é o direito do deficiente e do portador de necessidade especial.

  • BUSCAMOS AJUDA FORA DA ESCOLA, E OFERECEMOS NOSSA AJUDA TAMBÉM

Fazemos de tudo para interagir com os profissionais que cuidam dessa criança fora da escola, e para buscar apoio para ela. Se for preciso alguma adaptação na rotina, nos materiais que usamos ou no jeito de falar com a criança, ensiná-la, interagir com ela, será feito, na medida do possível – e às vezes do impossível também… Não nos negamos a participar de nenhum tratamento ou recomendação médica. E nos colocamos à disposição das equipes para relatar, conversar ou aprender coisas sobre a criança.

  • BUSCAMOS DIVULGAR NOSSAS PRÁTICAS COM INCLUSÃO

Nas reuniões de pais, em encontros com outros educadores, em revistas especializadas e em nosso blog estamos sempre contribuindo, escrevendo, registrando nossa prática, para que ela não seja perdida, e também para que a escola tenha uma cultura educacional que vá além das pessoas que lá estão hoje.

  • TODOS SÃO INCLUÍDOS

Toda vez que a palavra inclusão é mencionada no ambiente escolar, logo imaginamos “incluir” alguém com uma deficiência explícita. Pensamos em alguém com cadeiras de rodas, alguém com um transtorno mental ou psíquico, alguém que não ouve, não fala ou não escuta bem e que precisará de ajuda extra para conviver e aprender em um ambiente com outras pessoas ditas “normais”.

Toda essa fantasia em torno da deficiência torna mais difícil a discussão e o amadurecimento de educadores e famílias. A experiência com alunos ditos deficientes fez acordar para uma realidade – a diferença ( seja ela uma deficiência, uma qualidade, ou simplesmente uma característica ) faz parte do humano. E por isso, todos, em algum momento de nossas vidas, precisamos ser incluídos.

Cada criança que recebemos é de um jeito. Tímidos, agressivos, falantes, inteligentes demais, arredios, desconcentrados, medrosos, de todas as etnias e tipos físicos, crianças com alguma necessidade alimentar ou de saúde sutil, carentes, estressados, agitados, abandonados, tristes ou alegrinhos, com histórias familiares complicadas… Cada um deles merece um olhar especial, momentos de dedicação, uma conversa individual, um carinho diferente. Entre eles, estão as crianças deficientes. Faz parte da profissão de um educador acolher a diferença, e ao mesmo tempo, incentivar o grupo a ser um grupo de verdade.

Todos às vezes ficamos deficientes de algo por algum motivo. Alguém que torce o pé e precisa de uma rampa no local de trabalho, pensa na vida das pessoas que usam cadeiras de roda e muletas todos os dias. Podemos pensar em nossas dificuldades que não conseguimos resolver, nas incapacidades, nas coisas que não conseguimos aprender. Todos às vezes não são aceitos em um grupo ou lugar por não corresponder às expectativas dos outros, pré-julgada.

Convivendo com essas crianças, percebemos que mais do que a consciência racional de uma deficiência, seja ela qual for, é preciso sensibilidade e firmeza para encará-la e transpô-la. Todos precisamos ser incluídos. E aí está o bonito e o difícil da coisa – se é ao nos confrontarmos com outros que nos damos conta das nossas diferenças, é também na empatia do que nos faz iguais que encontramos o conforto e a superação. E somos iguais por sermos humanos. Isso não é diferente pra nenhum de nós.

 

RESULTADOS

Os benefícios da educação inclusiva não são apenas para a criança deficiente ou com alguma necessidade especial atendida, mas para todos. Os educadores começam a repensar seus métodos e intenções – não só para a criança em questão, mas para todos. Outros funcionários começam a se envolver mais no processo educativo, compreendê-lo melhor, e portanto começam a compreender melhor sua função educativa – TODOS na escola são educadores. O grupo de educadores também começa, a partir das necessidades dessa criança, a se ajudar, entrosar mais e trabalhar em conjunto. Funcionários e outras famílias começam a mudar o olhar sobre questões como deficiência, igualdade de direitos, limites, solidariedade – mudanças de paradigmas e de visão.

Mas o principal ganho está para as crianças que convivem com o portador de necessidade especial. Eles são colocados nessa reflexão sobre o relacionamento com outro ser humano diferente, e começam a pensar em coisas como respeito, ritmo, ajuda, diferença. Começam a enxergar as facilidades da criança com necessidade especial e também suas próprias dificuldades, e encarar isso como parte da vida. Eles serão cidadãos melhores na medida em que convivem com e deficiência, com a especificidade de outro ser humano e são envolvidos nesse processo de ajuda. Compreenderão melhor a conviver com essas pessoas, até que chegue um dia em que não precisemos mais falar em inclusão… Porque já será natural essa convivência e aceitação do diferente.

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LAS COLORES DE LAS FLORES

Fica a dica desse lindíssimo e curtinho documentário que conta como um menino cego conseguiu fazer uma redação sobre as cores das flores.

Como diz a Meire, nossa coordenadora… Quem sabe até onde um humano pode chegar? 🙂

Professora Karina Cabral

ELES SERÃO MELHORES…

Por

Professora Karina Cabral

Há esperança para o mundo. Digo isso olhando as crianças. Eles têm apenas 3, 4 anos. E embora eu saiba que, como pregava a linda canção do Louis Armstrong, o mundo é maravilhoso e eles saberão muito mais do que eu jamais poderei saber, algo é certo pra mim – eles farão do mundo um lugar melhor pra se viver.

Os meninos serão homens melhores, porque agora brincam com bonecas, panelinhas, perucas e casinha como qualquer menina. Eles abraçarão melhor os filhos porque ninam os bebês de brinquedo sem culpa, e dividirão as tarefas de casa com as meninas, que por sua vez, também serão mulheres melhores. Elas querem ser motoristas, médicas, querem empurrrar o carrinho, e não aceitam mais ficar de fora de nenhuma brincadeira só por serem meninas – sem deixar de adorar batom e maquiagem.

Eles serão cidadãos melhores porque não aceitam ordens absurdas sem questionar os adultos, e perguntam sobre tudo que têm dúvida. Serão melhores por entender a importância de aprender a amarrar o próprio sapato, tirar a própria blusa, resolver os próprios conflitos, tomar decisões e fazer escolhas. Serão mais ordeiros por terem muitas coisas pra organizar e guardar, e por, mesmo sendo tão pequenos, terem acesso à informações, livros, computadores, documentários, boa música, arte e cultura, internet e todo tipo de esporte.

Mas quando vejo as crianças agindo em relação às crianças com deficiências e necessidades especiais, vejo que ele serão MUITO melhores que nós.

Convivo tanto com eles que às vezes esqueço o quanto são pequenos… O quanto ainda têm pela frente. São criancinhas de apenas quatro anos, cheias de vontades individuais, egocêntricas, ainda tentando se entender no mundo. Personalidades em choque relacional, pessoas inteiras que até pouco tempo não conheciam muito mais que o bordado da barra da saia da mãe. Crianças carentes de atenção, de orientação, de descoberta, de carinho, de mim… Ávidas pelo mundo e tudo que ele tem, capazes de aprender muito, e com uma velocidade espantosa. E, ainda assim, tão pequenos e envolvidos em si mesmos, eles conseguem olhar para as necessidades do outro, com sensibiliade espantosa.

Eles conseguem esperar a vez sem empurrar. Conseguem pegar a mochila do amigo. Conseguem dar prioridade na fila do lanche. Conseguem ajudar a descer e subir da cadeira de rodas. Conseguem reduzir o ritmo de uma brincadeira para que todos possam brincar. Tratam com muito respeito o fato de um amigo não andar, não falar ou usar fraldas. Conseguem perceber quando ele precisa de água, quando não está sentado confortavelmente, quando  não alcança alguma coisa. E estão sempre lá pra ajudar.

Quando eu era criança, era feio ser diferente. Eu nunca convivi com nenhuma criança deficiente na escola. Quem era negro, gordo, quem usava óculos, ou tinha uma nacionalidade diferente, quem era mais pobre ou tinha pais esquisitos, quem era adotado ou nordestino, todas essas pessoas eram excluídas e agrupadas à parte, como se fosse feio não ser do jeito ideal. E isso causava tristeza, agressão, apatia, dor, raiva.

Alguém diria, o mundo vai estragá-los. Sim, sempre estraga, e isso é inevitável. Há um lado escuro no ser humano que é assustador.

Mas continuo crendo que eles ainda serão melhores. E isso me dá força pra ir continuar trabalhando todas as manhãs.

INCLUIR É UMA OPÇÃO!

O que caracteriza um educador não é o nome do seu cargo, nem se ele trabalha nos corredores da escola, na cozinha, na secretaria ou dentro da sala de aula – verdadeiro educador é aquele que trabalha pra valer contribuindo com tudo que pode, assumindo postura envolvida, investigativa, interessada e sensível em relação às crianças. Ana, uma de nossas ATEs ( inspetoras ), mostra, em seu relato sensível, a qualidade de seus ideais e de seu trabalho junto aos pequenos

INCLUIR É UMA OPÇÃO!

Por Ana Damasceno Nascimento

Olá!

Eu sou Ana, trabalho há quase três anos na EMEI Jardim Monte Belo, e o meu cargo é de ATE I – Inspetora ( Auxiliar Técnico Educacional ). Minha função na escola é auxiliar os pequenos na higiene, na alimentação, e também quando infelizmente eles estão mal de saúde ou sofrem algum acidente. Quando necessário, auxilio as professoras nas classes. Faço a entrada e saída das crianças… E onde precisarem de mim na escola, eu ajudo.

Falar de inclusão, para mim, é falar de uma via de mão dupla. Por quê? Aprendi que quando se matricula uma criança com necessidades especiais em minha escola, ela será, sim, inclusa neste novo convívio social. Mas eu, como educadora, também terei que ser inclusa na realidade dela, em seu mundo.

Tenho tido experiências indescritíveis com essas crianças… Experiências que levarei para onde eu for.

Quando comecei a trabalhar na EMEI Jardim Monte Belo, me deparei com pessoas que, querendo ou não, me assustaram, descrevendo como seria a minha realidade com alunos de inclusão. Confesso a vocês que “tremi na base”, senti medo de não saber o que fazer. Foi então que conheci o Rafael, a Vitória e o Diego. Realmente, era tudo muito diferente para mim. Por exemplo, o Rafa… Ele ia ao banheiro, mas se eu descuidasse, fazia a maior sujeira… Fora que, na hora do lanche, ele cismava de brincar de pega-pega – só que era eu quem corria atrás dele…

Não vou ser hipócrita dizendo que tudo eram flores, pois não era. Mas quando comecei a ver essas diferenças, na verdade, meus olhos mudaram… Eu comecei a ME incluir. Percebi que quando o Rafa sujava o banheiro, a sua sujeira era porque estava tentando se limpar sozinho; que quando babava demais é porque estava muito feliz com tudo que vivia na escola; e o melhor: ele entendia que eu o amava… Sinto que ele percebia o carinho das pessoas e respondia a isso do jeito dele.

Cá entre nós, me entristeço quando essas crianças têm que partir da nossa escola. Sei que lá fora há pessoas que não acreditam que é possível. A todo momento, essas crianças terão que lidar com a sorte… Sorte de cair em uma escola legal, sorte de ter quem pense sobre isso por perto, sorte de ter uma professora ou uma funcionária que abrace essa causa.

Se os educadores não optarem por dar continuidade a um trabalho como esse com essa criança, haverá a regressão… Eles estarão cada vez mais longe da autonomia, da dignidade de serem pessoas inteiras, dos seus direitos de cidadão… Do seu desenvolvimento pessoal.

Sei que o diferente, muitas vezes, assusta. Mas o que é mais aterrorizante é a indiferença!

Ana Damasceno Nascimento

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