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O NOSSO QUINTAL É ALEGRE… O NOSSO QUINTAL É DA INFÂNCIA!

Por 

Educadoras do Projeto Alegrias de Quintal

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Se você tem um pouco mais de 20 anos, é bem possível que sua infância tenha tido um quintal. Sim, quintal, terreninho, terreiro, rua, terreno baldio. Um lugar onde as crianças podiam brincar juntas… Um espaço e tempo que era território de infância.

Muitas vezes o quintal não era dentro da casa de ninguém, era em um espaço que não tinha dono, que era de todos.E muitas vezes mesmo não era adequado pra brincar. E por isso, entrava todo tipo de gente. Menino e menina. Criança maior, bem grande, menor, bem pequena. Pobre, rico, criança mais calma ou mais agitada, doente ou saudável. Tinha até bicho – cachorro, gato, passarinho, bichinhos de jardim. E era todo mundo ali junto.

No quintal, adulto entrava só pra organizar e dar umas poucas ordens, ou pra socorrer quando algo mais sério acontecia. Quem reinava mesmo eram as crianças. Mais velho cuidando de mais novo… Mais novo brincando de coisas que ninguém achava que era capaz… Irmão, irmã, prima, vizinho, gente que ninguém nem conhecia, um chocando a cultura familiar com a cultura do outro. Brinquedo repartido, brinquedo criado, brinquedo catado no mato, brinquedo inventando, que ninguém via. Grito, correria, confusão. Natureza também era brinquedo. No quintal se tomava chuva, se cheirava mato, se brincava com terra, se empinava pipa usando o ar, se brincava até com fogo escondido de vez em quando.

No quintal, um comia na casa do outro. Todo adulto era pai e mãe de todo mundo – cuidava, dava bronca, assoprava machucado, dava conselho, dava asa pra brincadeira; porque antes, não era assim como é hoje, cada um na sua. Antes as crianças eram de todo mundo, e todo mundo zelava pela segurança e educação delas, por mais que cada família fosse diferente.

 O tempo do quintal também era outro. No quintal, as crianças geriam o tempo. Elas escolhiam se queriam ficar mais de canto, ou se queriam participar com todos, ou com poucos. Elas tomavam decisões sobre o tempo da brincadeira, e também sobre as regras, os jeitos. Ah, que delícia era esse quintal… Um cuidando do outro. Um brincando com o outro. Um desafiando o outro. Um imitando o  outro. Um junto com o outro, e todos juntos com todos. E muitos quintais duravam muito tempo. De manhãzinha até de noite. E duravam muito tempo também na vida da gente. Uma infância inteira.

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Veja as lindas imagens do pintor Cândido Portinari sobre os quintais de antigamente…

Os quintais de nosso tempo são outros. A rua tem muitos perigos. As casas são pequenas e apertadas. Os parques são escassos e difíceis de chegar. Tem muito fio elétrico, muito carro, muita droga e violência. As crianças de nosso tempo não sabem direito o que é um quintal. Aliás, as crianças de nosso tempo não sabem direito nem mesmo o que é ser criança. Elas estão aí, vitimizadas por tanto abandono, por tanta correria, por tanta violência, por tanto computador e TV… E perderam o direito a ter um quintal.

Por isso resolvemos juntar duas coisas que gostamos, e que acreditamos que são vitais para as crianças: o quintal e a escola. E daí nasceu o projeto Alegrias de Quintal – um jeito novo nosso de ensinar… Um jeito bonito para as crianças de aprender e conviver.

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A hora do quintal é o momento dos encontros. É bonito de se ver e de ouvir a euforia das crianças em estarem juntos.

Nesse encontro das turmas ( no pátio, às 11h para a turma da manhã, às 15h para a turma da tarde ), nós adultos contamos sobre os desafios que irão acontecer em cada espaço e qual adulto estará lá para eles e com eles. Segue-se uma hora e meia de atividades, quando as crianças podem escolher onde irão, com quem ficarão, com quem brincarão, e por quanto tempo.

Algumas crianças combinam onde irão primeiro, e há um diálogo interessante e rico em que as manifestações e argumentações entre eles acontecem sem que o adulto interfira. O único espaço que no decorrer do ano não usamos é a sala de aula. Procuramos pensar, organizar e otimizar os espaços externos e quando chove, “sambamos” um pouquinho, mas conseguimos fazer as coisas acontecerem sem negar o direito das crianças escolherem as brincadeiras.

A cada quinze dias, rodiziamos nos espaços e propomos novos desafios. Há crianças que seguem o adulto por conta do vínculo, da confiança estabelecida na relação ou por se identificar com o estilo do adulto. Há crianças que brincam e exploram um pouco de cada espaço e há também as que sempre procuram o mesmo local.

Entre as turmas da manhã e tarde, há características e especificidades diferentes. O resultado em relação ao que propomos, na maioria das vezes, pode ser diferente, mas não nos causa nenhum desconforto.

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Se você é criança, no nosso quintal, você pode escolher brincar no parque, se movimentar; pode ir almoçar; pode montar uma pista de carrinho; pode ir fazer alguma atividade de artes; pode ir jogar; pode ir mexer com madeiras e outros materiais não estruturados; pode descansar; pode ir fazer brincadeiras criativas, ou dirigidas; pode ir fazer uma máscara, ou uma experiência científica com luz e sombra; pode ir andar de motoca ou sentar um pouco pra bater papo com seu amigo; pode fazer um castelo de areia, ou balançar. Pode tudo isso junto e misturado… E pode só uma coisa dessas. Porque o quintal que é de todo mundo, ao mesmo tempo, é também de cada um.

E sempre vai ter por perto uma educadora te desafiando, te ensinando, te propondo desafios, falando de pertinho com você e observando seu crescimento, respeitando você e ao mesmo tempo tentando te mostrar algo diferente. E essas educadoras conversam! E trocam muitas ideias e olhares sobre você. E pensam novos desafios… E fazem a coisa acontecer com proximidade, diálogo. As educadoras não estão só brincando no quintal. Elas pensam pra você, que é criança, atividades muito interessantes que façam você sair de onde está e avançar mais um pouquinho na sua trajetória intelectual, social, pessoal… Emocional.

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No nosso quintal é assim: a gente brinca, se alegra, come, aprende, conversa, convive… E vive.

Nosso quintal é território de aprendizagem, de infância, de brincadeira, de gente. É gente que faz escola, que faz quintal, que faz coisas boas pra si mesma e pros outros, que faz cultura, que troca ideias.

Nós acreditamos nisso. E nessa série de seis textos, você vai entender melhor como cada professora pensa e faz acontecer o quintal, junto com as crianças.

Nosso quintal não tem cerca, pelo menos não pra trocar ideias! Pode entrar. Você é nosso convidado ou convidada. 🙂

PASSEIO PELO BAIRRO

Na maior parte dos Projetos Pedagógicos das escolas, públicas ou não, em algum ponto estará escrito que é preciso “conhecer a comunidade”, “trazer os pais para a escola”, “estimular o contato entre pais e educadores”, “receber e acolher as famílias”, “praticar a gestão participativa e democrática”. Termos bonitos e prontos que só quem se arrisca a colocá-los em ações práticas sabe como é delicado e difícil conseguir. Aproximar-se da comunidade é, antes de tudo, rever nossas concepções de mundo, de pessoa, de educação.

Na manhã chuvosa do último sábado, dia 12 de março, o grupo de funcionários saiu da escola para, mais uma vez, tentar dar um passo em direção à relação saudável entre educadores e comunidade que tanto buscamos. Fomos fazer um reconhecimento da geografia, da história e da estrutura social do bairro em que trabalhamos, conhecido como “Morro Doce“. É um bairro ligado ao distrito de Anhanguera, administrado pela subprefeitura de Perus. Fica na saída da Rodovia Anhanguera, no Oeste da cidade de São Paulo. O bairro conta com várias pequenas vilas – a maior parte delas iniciada em terrenos invadidos, agora já regularizados.

Ladeiras super íngremes, ruas estreitas, áreas em construção e outras de natureza intocada - um bairro em crescimento desordenado e explosão demográfica

Presas em um ideal de criança, um ideal de família e um ideal de bairro, e fechadas dentro da escola, muitas vezes não imaginamos como é a vida real das nossas crianças – como são suas casas, como são as ruas que andam, onde brincam, onde compram o pão, quem são seus vizinhos, o que vêem e ouvem, com quem convivem, onde vão, a que perigos estão expostas. Se não furarmos a bolha que separa a escola do bairro e da comunidade em que está inserida, corremos o risco de educar e construir relações segundo nossos preconceitos e estereótipos. Pensaremos que são mais ou menos carentes, mais ou menos interessados, mais ou menos vivenciados, mais ou menos felizes do que realmente são. Será uma relação falsa e distante.

Casas antigas, casas novas e lindas, construções inacabadas e barracos convivem na mesma paisagem

Depois da visita, que deixou a muitas de nós surpresas, sentamos para conversar e trocar nossas impressões. Alguns pontos levantados pelas educadoras:

* A geografia física do bairro realmente é rica e peculiar: vimos brejos, plantações de eucalipto, matas fechadas e intocadas, baixadas alagadas, picos e vales.

* O bairro é relativamente novo, está em crescimento e tem muitos contrastes. Vimos casas bem grandes e bem acabadas, casas antigas e que parecem sítios, barracos, ruas sem asfalto, sem coleta de lixo e onde o correio não chega.

* Recentemente algumas ruas foram “rebatizadas” oficialmente pela prefeitura, o que mudou os nomes que a própria comunidade  tinha escolhido.

* Embora seja um bairro numeroso e em explosão demográfica, temos pouquíssimas escolas, apenas duas unidades de saúde e quase nenhuuma área de cultura e diversão. Pessoas, às vezes, andam até dois quilômetros para conseguir chegar a um ponto de ônibus, e em muitas ladeiras, carros e caminhões não podem subir. A região de Perus, que abarca o bairro do Morro Doce e conta com 160 000 habitantes, não tem um leito sequer de hospital e apenas um pronto-socorro.

Vilas e bairros imensos, cheios de casas, pessoas... E poucas escolas, postos de saúde e possibilidades de diversão

* As educadoras que estão a mais tempo no bairro, reconhecem que ele melhorou muito em condições básicas e saneamento – asfalto, luz elétrica, coleta de lixo e canalização de córregos era algo distante da população 10 anos atrás, e por luta constante dos moradores, foi sendo conseguido, embora ainda não tenha chegado a todos.

* O comércio local conta com pequenos estabelecimentos, poucos bares, e algumas lojas específicas. Vimos também muitas igrejas e alguns centros sociais de apoio à população.

* As casas são apertadas no espaço estreito das ruas, e a maior parte delas não tem quintal. As ruas, por serem tão íngremes, não podem ser usadas para brincar, o que nos fez pensar que as crianças vêem na escola e seu entorno um espaço amplo e divertido que não parecem  ter em casa.

Educadoras saem da escola para conhecer de perto o bairro em que trabalham - muitas surpresas, construções e desconstruções nesse trajeto

* Por ser um lugar carente de infra-estrutura, as pessoas vão à escola acreditando que é um lugar onde podem ser ouvidas. Contam conosco, respeitam, dão valor, ainda que muitas vezes não façam isso do jeito que esperamos. Isso nos traz alegria e nos lembra da nossa responsabilidade junto a essas pessoas.

* O TEG ( transporte escolar gratuito ) é muito importante para as crianças, pois sem ele, para algumas, seria muito sofrido e até mesmo inviável andar tanto para chegar à escola. Os adolescentes do bairro têm que estudar na Lapa, e as crianças maiores muitas vezes andam mais de uma hora para chegar à escola. Nossos alunos, embora merecessem ter mais escolas perto de suas casas, ainda são “privilegiados” por serem pequenininhos.

O bairro começou e cresceu desordenadamente grudado nos morros - história que já ouvimos tantas vezes, e que esperamos que não acabe em tragédia como tantas outras

* A área é de mananciais e nascentes – tínhamos uma delas dentro do tanque de areia do parque. O solo é instável. Quando um buraco se abre na rua, logo vira uma cratera. E isso parece bem perigoso. Ficamos pensando o quanto a população corre o risco de sofrer com desabamentos e coisas do tipo.

* Embora seja um bairro tranquilo, já começamos a ouvir relatos de moradores dizendo ter medo do aumento da criminalidade e do uso de drogas. Com poucas opções de estudo, apoio social, saúde, trabalho e diversão, fica mais fácil que a juventude se envolva com entorpecentes. É uma doença social que também nos afeta, por mais que não queiramos enxergar.

* Falamos também sobre a arrogância de prestadores de serviços públicos que, apoiados por preconceitos econômicos e sociais, destratam a população como se estivessem prestando um favor a ela, quando na verdade são funcionários pagos com o dinheiro de todos para fazer um serviço de qualidade, seja na área que for.

Quantas ladeiras, ruas sem calçada, barreiras e problemas as crianças do bairro enfrentam até chegar à escola todos os dias...

* Ainda vemos no bairro coisas que parecem distantes do imaginário que temos do que seria um bairro urbanizado da cidade de São Paulo – pessoas sentadas na calçada conversando, churrasco na rua, casas sem portão, charrete, galinhas e vacas sendo criadas no quintal.

* Embora, ao longo desses dez anos, tenhamos ouvido muitas histórias tristes, o bairro do Morro Doce tem uma característica alegre e batalhadora. As pessoas têm orgulho de contar a história do bairro atreladas à história de suas próprias vidas. E isso faz com que adotemos o bairro e a comunidade como nossos também.

Vista aérea do bairro e no vale, a escola - um bairro que começou, cresceu e tem buscado a dignidade através da luta de seus moradores

Claro, as impressões, informações visuais e coisas que sentimos são impossíveis de colocarmos totalmente em palavras. Mas a experiência, com certeza, aumentou nossa sensibilidade e conhecimento para lidar com as pessoas que estão na escola todos os dias. Somos todos humanos em relação constante. E essa relação terá mais veracidade e qualidade quanto mais nos dispusermos a conhecer melhor uns os outros… Quanto mais nos abrirmos para essa relação. Valeu!

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