EMEI Jardim Monte Belo – um lugar pra ser feliz!

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ELES SERÃO MELHORES…

Por

Professora Karina Cabral

Há esperança para o mundo. Digo isso olhando as crianças. Eles têm apenas 3, 4 anos. E embora eu saiba que, como pregava a linda canção do Louis Armstrong, o mundo é maravilhoso e eles saberão muito mais do que eu jamais poderei saber, algo é certo pra mim – eles farão do mundo um lugar melhor pra se viver.

Os meninos serão homens melhores, porque agora brincam com bonecas, panelinhas, perucas e casinha como qualquer menina. Eles abraçarão melhor os filhos porque ninam os bebês de brinquedo sem culpa, e dividirão as tarefas de casa com as meninas, que por sua vez, também serão mulheres melhores. Elas querem ser motoristas, médicas, querem empurrrar o carrinho, e não aceitam mais ficar de fora de nenhuma brincadeira só por serem meninas – sem deixar de adorar batom e maquiagem.

Eles serão cidadãos melhores porque não aceitam ordens absurdas sem questionar os adultos, e perguntam sobre tudo que têm dúvida. Serão melhores por entender a importância de aprender a amarrar o próprio sapato, tirar a própria blusa, resolver os próprios conflitos, tomar decisões e fazer escolhas. Serão mais ordeiros por terem muitas coisas pra organizar e guardar, e por, mesmo sendo tão pequenos, terem acesso à informações, livros, computadores, documentários, boa música, arte e cultura, internet e todo tipo de esporte.

Mas quando vejo as crianças agindo em relação às crianças com deficiências e necessidades especiais, vejo que ele serão MUITO melhores que nós.

Convivo tanto com eles que às vezes esqueço o quanto são pequenos… O quanto ainda têm pela frente. São criancinhas de apenas quatro anos, cheias de vontades individuais, egocêntricas, ainda tentando se entender no mundo. Personalidades em choque relacional, pessoas inteiras que até pouco tempo não conheciam muito mais que o bordado da barra da saia da mãe. Crianças carentes de atenção, de orientação, de descoberta, de carinho, de mim… Ávidas pelo mundo e tudo que ele tem, capazes de aprender muito, e com uma velocidade espantosa. E, ainda assim, tão pequenos e envolvidos em si mesmos, eles conseguem olhar para as necessidades do outro, com sensibiliade espantosa.

Eles conseguem esperar a vez sem empurrar. Conseguem pegar a mochila do amigo. Conseguem dar prioridade na fila do lanche. Conseguem ajudar a descer e subir da cadeira de rodas. Conseguem reduzir o ritmo de uma brincadeira para que todos possam brincar. Tratam com muito respeito o fato de um amigo não andar, não falar ou usar fraldas. Conseguem perceber quando ele precisa de água, quando não está sentado confortavelmente, quando  não alcança alguma coisa. E estão sempre lá pra ajudar.

Quando eu era criança, era feio ser diferente. Eu nunca convivi com nenhuma criança deficiente na escola. Quem era negro, gordo, quem usava óculos, ou tinha uma nacionalidade diferente, quem era mais pobre ou tinha pais esquisitos, quem era adotado ou nordestino, todas essas pessoas eram excluídas e agrupadas à parte, como se fosse feio não ser do jeito ideal. E isso causava tristeza, agressão, apatia, dor, raiva.

Alguém diria, o mundo vai estragá-los. Sim, sempre estraga, e isso é inevitável. Há um lado escuro no ser humano que é assustador.

Mas continuo crendo que eles ainda serão melhores. E isso me dá força pra ir continuar trabalhando todas as manhãs.

TODOS SÃO INCLUÍDOS

Por Professora Karina Cabral

Toda vez que a palavra inclusão é mencionada no ambiente escolar, logo imaginamos “incluir” alguém com uma deficiência explícita. Pensamos em alguém com cadeiras de rodas, alguém com um transtorno mental ou psíquico, alguém que não ouve, não fala ou não escuta bem e que precisará de ajuda extra para conviver e aprender em um ambiente com outras pessoas ditas “normais”.

Toda essa fantasia em torno da deficiência torna mais difícil a discussão e o amadurecimento de educadores e famílias. Minha experiência com meus alunos ditos deficientes me fez acordar para uma realidade – a diferença ( seja ela uma deficiência, uma qualidade, ou simplesmente uma característica ) faz parte do humano. E por isso, todos, em algum momento de nossas vidas, precisamos ser incluídos.

Fiquei pensando nas centenas de crianças que cruzaram comigo nesta vida. Cada um era de um jeito, cada um me via de um jeito, para cada um dei coisas diferentes de mim, de cada um recebi coisas diferentes. Tímidos, agressivos, falantes, inteligentes demais, arredios, desconcentrados, lunáticos, medrosos, gordinhos, magérrimos, crianças com alguma necessidade alimentar ou de saúde sutil, carentes, mimados, agitados, terríveis, abandonados, chatos, malvados, tristinhos ou alegrinhos, famílias complicadas… Cada um deles mereceu de mim um olhar especial, momentos de dedicação, uma conversa individual, um carinho diferente. Entre eles, estão as crianças deficientes. Faz parte da profissão de um educador acolher a diferença, e ao mesmo tempo, incentivar o grupo a ser um grupo de verdade.

Fiquei pensando nas vezes em que eu fiquei deficiente de algo por algum motivo. E nas deficiências que tenho até hoje. Quando torci o pé e precisei de uma rampa no meu local de trabalho, pensei na vida das pessoas que usam cadeiras de roda e muletas todos os dias. Não faz muito tempo tive uma conjuntivite fortíssima, e pensei como é horrível letras tão pequenas pra indicar as coisas em quase todos os lugares, quando a gente mal consegue ver. Penso nas minhas dificuldades que não consigo resolver, nas minhas incapacidades, nas coisas que não consegui aprender. Penso nas vezes em que não fui aceita em um grupo ou lugar por não corresponder às expectativas dos outros, pré-julgada. Tudo isso doeu, mas passou. Imagino como deve ser reviver isso todos os dias, todas as horas.

Convivendo com essas crianças, percebo que mais do que a consciência racional de uma deficiência, seja ela qual for, é preciso sensibilidade e firmeza para encará-la e transpô-la.

A verdade é que todos precisamos ser incluídos. E aí está o bonito e o difícil da coisa – se é ao nos confrontarmos com outros que nos damos conta das nossas diferenças, é também na empatia do que nos faz iguais que encontramos o conforto e a superação. E somos iguais por sermos humanos. Isso não é diferente pra nenhum de nós.

INCLUIR É UMA OPÇÃO!

O que caracteriza um educador não é o nome do seu cargo, nem se ele trabalha nos corredores da escola, na cozinha, na secretaria ou dentro da sala de aula – verdadeiro educador é aquele que trabalha pra valer contribuindo com tudo que pode, assumindo postura envolvida, investigativa, interessada e sensível em relação às crianças. Ana, uma de nossas ATEs ( inspetoras ), mostra, em seu relato sensível, a qualidade de seus ideais e de seu trabalho junto aos pequenos

INCLUIR É UMA OPÇÃO!

Por Ana Damasceno Nascimento

Olá!

Eu sou Ana, trabalho há quase três anos na EMEI Jardim Monte Belo, e o meu cargo é de ATE I – Inspetora ( Auxiliar Técnico Educacional ). Minha função na escola é auxiliar os pequenos na higiene, na alimentação, e também quando infelizmente eles estão mal de saúde ou sofrem algum acidente. Quando necessário, auxilio as professoras nas classes. Faço a entrada e saída das crianças… E onde precisarem de mim na escola, eu ajudo.

Falar de inclusão, para mim, é falar de uma via de mão dupla. Por quê? Aprendi que quando se matricula uma criança com necessidades especiais em minha escola, ela será, sim, inclusa neste novo convívio social. Mas eu, como educadora, também terei que ser inclusa na realidade dela, em seu mundo.

Tenho tido experiências indescritíveis com essas crianças… Experiências que levarei para onde eu for.

Quando comecei a trabalhar na EMEI Jardim Monte Belo, me deparei com pessoas que, querendo ou não, me assustaram, descrevendo como seria a minha realidade com alunos de inclusão. Confesso a vocês que “tremi na base”, senti medo de não saber o que fazer. Foi então que conheci o Rafael, a Vitória e o Diego. Realmente, era tudo muito diferente para mim. Por exemplo, o Rafa… Ele ia ao banheiro, mas se eu descuidasse, fazia a maior sujeira… Fora que, na hora do lanche, ele cismava de brincar de pega-pega – só que era eu quem corria atrás dele…

Não vou ser hipócrita dizendo que tudo eram flores, pois não era. Mas quando comecei a ver essas diferenças, na verdade, meus olhos mudaram… Eu comecei a ME incluir. Percebi que quando o Rafa sujava o banheiro, a sua sujeira era porque estava tentando se limpar sozinho; que quando babava demais é porque estava muito feliz com tudo que vivia na escola; e o melhor: ele entendia que eu o amava… Sinto que ele percebia o carinho das pessoas e respondia a isso do jeito dele.

Cá entre nós, me entristeço quando essas crianças têm que partir da nossa escola. Sei que lá fora há pessoas que não acreditam que é possível. A todo momento, essas crianças terão que lidar com a sorte… Sorte de cair em uma escola legal, sorte de ter quem pense sobre isso por perto, sorte de ter uma professora ou uma funcionária que abrace essa causa.

Se os educadores não optarem por dar continuidade a um trabalho como esse com essa criança, haverá a regressão… Eles estarão cada vez mais longe da autonomia, da dignidade de serem pessoas inteiras, dos seus direitos de cidadão… Do seu desenvolvimento pessoal.

Sei que o diferente, muitas vezes, assusta. Mas o que é mais aterrorizante é a indiferença!

Ana Damasceno Nascimento

ISSO É DE MENINA, ISSO É DE MENINO…

Se a escola pode ajudar a mudar uma realidade social de injustiça, preconceito e discriminação, também pode ajudar a mantê-la… A professora Valéria Marques Mendes propõe uma reflexão importante a todos que educam crianças pequenas – o quanto nossas ações reforçam a diferença histórica construída entre homens e mulheres, quando eles ainda são meninos e meninas?

Isso é de menina… Isso é de menino

Relações de Igualdade na Infância

Por Valéria Marques Mendes

Para começo de conversa….

Vocês já pensaram que a construção da ideia de gênero – o que entendemos como papel social do homem e da mulher – passa por nós, educadoras, na Educação Infantil?

Há várias discussões sobre o tema GÊNERO. Comecemos esclarecendo dois conceitos que nos ajudarão a entender melhor esse tema:

* Na Biologia, usamos o termo “gênero” como categoria classificatória; os animais de determinada espécie nascem machos se forem do sexo masculino, e fêmeas se forem do sexo feminino; é um dado bem objetivo…

* Nas Ciências Sociais ( sociedade ), o gênero é visto como uma construção social do que vem a ser o homem e mulher na sociedade, qual é o papel de cada um no grupo. Assim não nascemos, somos ensinados a ser; o que vem ser a construção social.

Partindo dessa concepção, gênero ( masculino ou feminino ) é uma construção social, algo que nos é ensinado desde bem pequenos.

Como ocorre isso dentro de nossas escolas?

Meninos brincando de casinha - nem por isso deixam de ser e gostarem de ser meninos...

Educadoras e educadores da infância, pensem bem! Em nossas relações com as pessoas pequenas, em todos os espaços da escola ( sala, parque, refeitório, corredor, pátio…), pensar a relação entre mulheres e homens ( meninas e meninos ) com igualdade é algo que poderá nortear nosso fazer educacional, certo?

Desta forma, podemos pensar o gênero como categoria de análise social, e não como classificatória. Deveria ser nosso papel abrir questões, reflexões, e não reforçar padrões que nem mesmo sabemos de onde vieram, e que só servem para oprimir.

Em outras palavras…

Para melhor refletirmos nossa ação como educadoras e educadores , proponho algumas perguntas. Em nossa rotina diária quantas vezes reforçamos gênero (biológico ou social), em ações simples, como:

* Pilhas de cadernos de menino de um lado e meninas do outro;

* Meninas brincam com casinha, bonecas;

* Meninos brincam com carrinhos, oficina, animais;

* Brincadeiras de meninas ( amarelinha, corda, elástico, passa anel…);

* Brincadeiras de meninos ( pega-pega, esconde-esconde, futebol…);

* As meninas sentam- se de um lado,

* Os meninos sentam-se do outro;

* Azul, verde são cores de menino;

* Rosa, lilás e vermelho só as meninas podem usar;

* “Essa menina é tão moleca…”;

* “Esse menino é tão afeminado…”;

* Fila de menino;

* Fila de menina;

* E outras tantas ações.

Você pode ser fermento da mudança…

Vocês já pararam para pensar que as mulheres são maioria dentro da Educação Básica, principalmente nas séries iniciais (Educação Infantil -CEIS/ EMEIS – e Fundamental 1)? Em sua escola, quantos educadores ( homens ) há? Será que não é papel dos homens ( pais ) educarem seus filhos/as ou somente essa é função das mulheres? Será que a baixa remuneração justifica o afastamento dos homens nesse espaço? Ou será que tudo isso foi nos ensinado socialmente ( desde cedo ), que quem educa as crianças são as mulheres?!

Há necessidade de revermos nossas ações como mediadoras/es, para além de categorizar o que é masculino e feminino. Só assim, poderemos pensar uma sociedade onde haverá equidade dentre mulheres/homens /natureza de forma sustentável. Ou reforçamos certos valores ou emancipamos com uma pedagogia libertadora – a escolha é nossa… E precisamos estar bem conscientes para fazê-la.

Professora Valéria Marques Mendes

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